
MOISÉS TAMBÉM ERA JUSTO
Com a paciência de Lot, estou chegando aos 50 e 15 anos de idade.
Alguém me corrige: a Paciência é de Jó! Lot é outra coisa. Lot é a mulher que virou estátua de sal. Jó é o da paciência.
Eu sei que sempre há um jeito certo de dizer as coisas e um jeito errado. Os milhares de anos da civilização nos legaram frases para todas as situações. Esquecê-las é trair a nossa herança.
Mas alguma coisa está ficando errada comigo. Será uma crise passageira?
Volto à Torre da Babilônia me sentindo derrotada como Napoleão depois do Watergate. Penso em tomar cicuta, como Aristóteles!
Meu medo é de que a notícia se espalhe. Estou me tornando vulnerável.
Minha visão feminina do calcanhar de Ulisses está em ação. Minha fama está ameaçada: “Dorothy ficando gagá”, dirão os mais íntimos. Como se eu já fosse velha, como..... quem? Como a Hebe Camargo.
Começo a repassar algumas frases que estão construindo minha nova reputação. Presente de sírio. Ou de Pirro? – o grego.
Vitória de Priapo. Ou de Judas?
Beijo de Juno. Ou de grego?
Pela madrugada acordo preocupada e me lembro: o calcanhar não é de Ulisses. De quem era, afinal, o maldito calcanhar? Depois de meia hora de angústia consigo me lembrar. Átila! Calcanhar de Átila. Durmo aliviada.
No dia seguinte, decidida a não me desesperar retomo minhas leituras. Recupero a certeza das minhas frases, afinal, Esparta não foi feita num dia. Em pouco tempo tudo estará como dantes no quartel de...de... de quem mesmo? Meu Deus!
Marco consulta com uma médica geriatra, acima de qualquer suspeita assim como a mulher de Nero. Conto-lhe o que vem me acontecendo. Ela “faz ouvidos de marceneiro” às minhas queixas, e diz:
- Você está perfeitamente bem, diz ela.
Sem resposta continuo na dúvida. É esclerose precoce, uma tarde de outono, ou só uma noite de verão?
Decepcionada e de sacolinha cheia lavo as mãos como Herodes, ou Pilatos?
Na saída do consultório a médica me dá uma orientação:
-Não saia de casa e não se comunique com ninguém por enquanto.
Não abro mais a boca. Com medo de me trair nas palavras fico em silêncio de prata, ou de ouro?
Quem vai dar o voto de Mecenas, ou de Minerva, no meu texto?
Que seja justo como Moisés, ou justo como Salomão? Deixa pra lá, Moisés também era justo!
Dorothy Coutinho - 03.out.2009
Com a paciência de Lot, estou chegando aos 50 e 15 anos de idade.
Alguém me corrige: a Paciência é de Jó! Lot é outra coisa. Lot é a mulher que virou estátua de sal. Jó é o da paciência.
Eu sei que sempre há um jeito certo de dizer as coisas e um jeito errado. Os milhares de anos da civilização nos legaram frases para todas as situações. Esquecê-las é trair a nossa herança.
Mas alguma coisa está ficando errada comigo. Será uma crise passageira?
Volto à Torre da Babilônia me sentindo derrotada como Napoleão depois do Watergate. Penso em tomar cicuta, como Aristóteles!
Meu medo é de que a notícia se espalhe. Estou me tornando vulnerável.
Minha visão feminina do calcanhar de Ulisses está em ação. Minha fama está ameaçada: “Dorothy ficando gagá”, dirão os mais íntimos. Como se eu já fosse velha, como..... quem? Como a Hebe Camargo.
Começo a repassar algumas frases que estão construindo minha nova reputação. Presente de sírio. Ou de Pirro? – o grego.
Vitória de Priapo. Ou de Judas?
Beijo de Juno. Ou de grego?
Pela madrugada acordo preocupada e me lembro: o calcanhar não é de Ulisses. De quem era, afinal, o maldito calcanhar? Depois de meia hora de angústia consigo me lembrar. Átila! Calcanhar de Átila. Durmo aliviada.
No dia seguinte, decidida a não me desesperar retomo minhas leituras. Recupero a certeza das minhas frases, afinal, Esparta não foi feita num dia. Em pouco tempo tudo estará como dantes no quartel de...de... de quem mesmo? Meu Deus!
Marco consulta com uma médica geriatra, acima de qualquer suspeita assim como a mulher de Nero. Conto-lhe o que vem me acontecendo. Ela “faz ouvidos de marceneiro” às minhas queixas, e diz:
- Você está perfeitamente bem, diz ela.
Sem resposta continuo na dúvida. É esclerose precoce, uma tarde de outono, ou só uma noite de verão?
Decepcionada e de sacolinha cheia lavo as mãos como Herodes, ou Pilatos?
Na saída do consultório a médica me dá uma orientação:
-Não saia de casa e não se comunique com ninguém por enquanto.
Não abro mais a boca. Com medo de me trair nas palavras fico em silêncio de prata, ou de ouro?
Quem vai dar o voto de Mecenas, ou de Minerva, no meu texto?
Que seja justo como Moisés, ou justo como Salomão? Deixa pra lá, Moisés também era justo!
Dorothy Coutinho - 03.out.2009