quinta-feira, 4 de março de 2010

COLUNA


O jardim de Academus

Há mais de um século era fundada a Academia Brasileira de Letras, fruto de um trabalho devotado de homens como Machado de Assis, Silvio Romero, Graça Aranha, Rui Barbosa, Inglês de Souza e tantos outros expressivos nomes das belas letras nacionais. Da maior parte deles, retirei alguns ensinamentos para pautar a minha vida acadêmica em nossa cidade de Caxambu, sede de uma das mais expressivas obras contemporâneas no cenário da literatura nacional. E digo isso com certo orgulho, a uma pela minha modesta contribuição ao sodalício literário de Caxambu e a outra, por ser atualmente seu presidente.
Pois bem, como dizia, ao retomar os estudos dos clássicos da literatura nacional, busquei subsídios maiores na casa de Machado de Assis, vindo-me às mãos um interessante estudo de Domício da Gama, novelista consagrado dos anos 20, falando sobre seus tempos de rapaz, quando foi presidente perpétuo do Grêmio Literário Jardim de Academus. Recorda aqueles tempos de rapaz, de suas teorias doutrinárias, socialista convicto, niilista ao extremo e, como mesmo afirma, num rompante dicotômico, nacionalista até à última raiz dos cabelos!
Mas o que me chamou atenção em toda essa passagem foi, sem dúvida, o fervor acendrado que devotava à literatura nacional, ainda em tenra idade, forçando uma natureza que, a rigor, não era para ser forçada dado o sentimento que lhe ia n’alma pelas letras nacionais. Em certo ponto acentuava que “a literatura nacional existia, eu devia trabalhar para ela, provar a sua existência aos incrédulos...” Este o cerne de minha crônica. O trabalho em prol da literatura nacional, provar a todos, a todo custo se possível, a existência das nossas letras, não deixar que se descaracterize, mantê-la viva. Veio-me à mente o mandamento básico de nossa Academia Caxambuense de Letras, qual seja, o de lutar pelas letras nacionais. Quando conclamamos os acadêmicos para se mostrarem, para pugnarem pela causa das belas letras, quer em âmbito regional, quer em âmbito nacional, estamos tão somente pedindo que cumpram com o dever mais comezinho de nossa Academia, que é ser, como é, a consciência intelectual da nossa cidade, como sói acontecer com todos os so¬dalícios literários espalhados por este nosso Brasil.
Assim é que, nessa esteira de pensamento e ação, inauguramos nessa última quarta-feira o I Curso de Produção Textual, numa parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Caxambu, numa tentativa de levar à comunidade docente de nossa cidade um pouco da experiência que acumulamos, como escritores e poetas, ao longo de nossa vida.
Seja, portanto, a nossa Acade¬mia de Letras o Jardim de Academus de Domício da Gama; acreditemos, trabalhemos em prol da cultura, das belas letras em nossa cidade, aliás, nesta nossa bela cidade de Caxambu. Façamos com que as pessoas acreditem no seu potencial, no potencial da cidade. Pugnemos por uma justiça social, isto a nós compete, como cidadãos pensantes, como consciência intelectual da cidade. Não precisamos de maiores inspirações, pois a própria geografia da cidade é pródiga em inspirações para todos nós. Caxambu realmente é uma dádiva para escritores, poetas, artistas. Bendigamos a nossa cidade e seu povo!


* Historiador e Presidente da Academia Caxambuense de Letras