domingo, 7 de março de 2010

DILMA VAI CAPRICHAR NO SOTAQUE MINEIRO


A campanha petista à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai se empenhar em reforçar os laços da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, com Minas Gerais, seu estado de origem. E a estratégia passa até por intensificar seu sotaque regional, além de fazer uma agenda específica de visitas, seminários e palestras em cidades mineiras. A orientação foi passada pelo marqueteiro político João Santana, que aposta no estado como fiel da balança nas eleições de outubro. Há também uma preocupação com a radicalização do discurso do PT na campanha, o que pode afastar investidores e jogá-los na campanha do PSDB.

Santana pediu à cúpula petista que promova uma agenda intensa para Dilma em abril e maio, período considerado limbo eleitoral – não se trata ainda oficialmente de campanha nem de um momento em que ela pode explorar a exposição do governo. A direção do partido prepara essa agenda exatamente em Minas e em São Paulo.

A intenção é ocupar um espaço aberto com a indefinição do PSDB. O provável candidato tucano ao Palácio do Planalto, o governador de São Paulo, José Serra, também colocou Minas como prioridade. Tanto que convidou em reunião privada na semana passada o governador Aécio Neves para ser seu vice. Os petistas consideram que o eleitorado mineiro, o segundo maior do país, rejeita a tese de ficar a reboque da política paulista. Por isso a ordem, ao apresentar a mineira Dilma, é colocá-lo como protagonista. A ministra terá ajuda até do vice-presidente José Alencar nessa imersão em sua terra de origem.

“O importante é concentrar no Sul e no Sudeste e aproveitar que a oposição enfrenta um dilema em Minas e explorar isso”, afirmou o deputado André Vargas (PT-PR), secretário nacional de Comunicação do PT, que esteve com Santana na semana passada. “Precisamos mostrar que ela é mineira, apesar de ela ter feito carreira e passado um longo tempo no Rio Grande do Sul.”

Mesmo fazendo carreira política no Rio Grande do Sul, a ministra nunca absorveu cacoetes gaúchos – pelo menos, publicamente, nunca os transpareceu. Dentro do PT, chegou-se até a brincar que o sotaque dela pareceria de carioca. Mesmo assim a ordem é reforçar a “mineiridade” de Dilma. E, se nas entrevistas saírem uns “uais” ou “sôs” com mais força, melhor ainda.

No Palácio do Planalto, a agenda do período de limbo é vista como normal e não uma intensificação de campanha. O exemplo citado é que Serra também terá de deixar o governo estadual e estabelecer uma agenda de pré-campanha nos dois meses, igualando o jogo. Nessa lógica, a aproximação das origens é mais importante.

Isso mostra a importância que está se dando para o estado, estratégico para a consolidação da aliança do PT com o PMDB. O senador Delcídio Amaral (PT-MS) disse que, se a campanha for firme entre os mineiros, o partido pode compensar o mau desempenho que coleciona em São Paulo, estado onde os tucanos dominam a política desde 1995 – antes até se contar o período do governador André Franco Montoro (1983-1987), que apesar de ter sido do PMDB foi artífice da criação do PSDB. “Com o espaço que o presidente Lula já tem no Nordeste, uma construção forte em Minas Gerais reequilibra as forças em São Paulo”, disse Amaral.

Além da estratégia específica de Minas, a coordenação de campanha está preocupada com possíveis radicalizações do PT que possam comprometer a relação da pré-candidata com o mercado financeiro. O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci e o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, coordenador da pré-campanha de Dilma, farão o contrapeso ao partido. Eles serão os emissários de conversas com banqueiros, investidores e empresários. “Os dois são importantes para amenizar discursos e ser pontes de equilíbrio”, disse um petista.