HÁBITOS REGIONAIS IIA alimentação
Os alimentos em quase todas as casas eram abundantes e com muita limpeza. Nunca faltavam as hortaliças e a canjica de milho era prato indispensável. Em lugar do azeite para as saladas e outras iguarias, muitos utilizavam a banha de porco. Fazia-se grande uso da carne de porco com feijão preto e, nos sertões, a carne de vaca seca picada e guisada com ervas, ou sem elas, era a comida mais servida.
Informam Adriana Romeiro e Ângela Botelho em sua obra “Dicionário histórico das Minas Gerais”, que nas refeições “acrescentavam-se ao feijão o torresmo, a farinha de mandioca e a couve, dando origem a pratos como o feijão-de-tropeiro e o tutu”, além do que, em muitas ocasiões, “cozinhava-se a carne em um caldo de farinha de mandioca – a vaca atolada – e consumia-se a abóbora misturada à carne de galinha e a esta acrescentava-se o quiabo”.
Junto aos rios piscosos, o peixe fresco, ou seco ao sol, salgado, era a base da sustentação alimentar. A farinha de milho era mais usada do que a de mandioca. Segundo o Códice Costa Matoso, a receita era simples: “lança-se o milho nos pilões a quebrar, e quebrado, que é o mesmo que tirar-lhe o cascabulho de fora, limpo dele, se deita de molho por cinco ou seis dias em água fria, aonde azeda alguma coisa. Passados estes dias, se tira e deita nos pilões segunda vez, onde se soca, mói e desfaz, e dali se tira e lança em uns fornos de cobre ou tachos, onde se torra e fica servindo de alimento como de pão e de mais uso nestas Minas que da mandioca”. O café e o leite eram de uso quase que obrigatório e constante.
Já a escravaria, segundo ainda Adriana Romeiro e Ângela Botelho, “alimentava-se de milho, mandioca e carnes não consumidas pelos senhores – como o pé, a cabeça e os intestinos dos animais, estes também utilizados na fabricação de sabão. Alguns cativos complementavam o regime alimentar com folhas, legumes e frutos encontrados nas matas, bem como com peixes e carnes de animais silvestres e produtos cultivados pelos próprios, com a concordância de seus proprietários”.
A aguardente, em pequena quantidade sempre aparecia nos jantares das famílias pobres. Aliás, a esse respeito, informa-nos José João Teixeira Coelho, em sua obra “Instrução para o governo da Capitania de Minas Gerais”, que o prejuízo com a abertura de fábricas de aguardente era muito grande, “porque nelas se ocupavam infinitas pessoas que podiam empregar-se em outros ministérios”, daí porque uma Ordem de 18 de novembro de 1715 proibia o levantamento de novos engenhos. Evidentemente, as providências foram inúteis e, conforme ainda o apontado historiador, “são raras as fazendas, ainda que pequenas, onde não há engenhos, e por isso se vende a aguardente de cana por um preço ínfimo”.
* Historiador e Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais