No sul de Minas Gerais a lavoura de subsistência foi importante no processo de colonização da maior parte da região e, os primeiros entradistas que se fixaram ao longo da região que medeia a garganta do Embaú – até o encontro do rio das Velhas, da mesma forma que os indígenas que ali encontraram, praticaram a chamada coivara, ou seja, a derrubada de árvores seguindo-se a queimada das mesmas, servindo as cinzas para a fertilização do solo e início das suas plantações.
Diversos viajantes estrangeiros que passaram por aqui atestaram em seus diários que os colonos carpiam a terra duas vezes por ano e, após duas ou três colheitas, deixavam a terra em repouso. Isso foi necessário devido à carência de alimentos que seriam a base para se empurrar, inclusive, a linha de Tordesilhas mais para oeste, além de base da alimentação das regiões mineradoras.
Em interessante depoimento, um viajante anônimo que estava de passagem por Minas Gerais, indo do Rio de Janeiro para São Paulo, no ano de 1717, no caminho encontrou o rancho de um paulista que lhe serviu carne de macaco e algumas formigas para alimentação. Por isso mesmo, algumas providências foram adiante tomadas pelos governantes, autorizando-se a utilização de escravos para plantarem alimentos ao longo dessa região. Assim, surgiram as primeiras roças e, segundo o depoimento do padre Antonil, muitas delas serviram, inclusive, para dar sustentação à própria região de mineração, haja vista que também ali a escassez de alimentos era um problema crucial.
Desta forma, de acordo com anotações de contemporâneos, a agricultura de subsistência evoluiu principalmente no sul das Minas Gerais, dado que ali os moradores arcavam com uma tributação menor do que aquela destinada à região das minas de ouro, o que ensejou um maior desenvolvimento das atividades agropastoris. É ainda o padre Antonil que relata “...e também os que metendo gado e negros para os venderem por mais preço, e outros gêneros mais procurados, ou plantando, ou comprando roças de milho nas minas, se foram aproveitando do que outros tiraram”.
As atividades econômicas iam diversificando-se e núcleos mais afastados das minas serviram para desenvolver uma pequena economia agropastoril que abastecia de gado e alimentos a região das minas, assegurando o abastecimento dos principais núcleos naquele entorno.
A região sul das Minas Gerais é um exemplo vivo disso: Campanha, Baependi e Aiuruoca, os primeiros núcleos de povoamento, formaram importantes zonas de produção de alimentos, ainda mais quando em 1798 a Coroa portuguesa incentivava a agricultura nessa região, recomendando o uso de bois e arados para o cultivo de terras e aproveitamento das canas moídas e queimadas e a introdução de métodos próprios para descascar o café o algodão.
De acordo com o que nos deixou anotado José Vieira Couto, em sua obra “Memória sobre a Capitania das Minas Gerais”, no final do século XVIII havia duas classes de gente em Minas Gerais, ambas curvadas sobre a terra e que tiravam dela sua subsistência: uma remexendo a superfície e revezando suas plantações e colheitas; outra, penetrando mais abaixo desta mesma superfície, arrancando este outro gênero de riqueza (ouro).
* Historiador e sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais
