AINDA SOBRE VIAJANTES NO SUL DAS MINAS GERAIS - 4
Não restam dúvidas que os hábitos alimentares dos primeiros habitantes das Minas Gerais tiveram origem essencialmente na culinária indígena: tanto o modo de tratar a caça quanto a agricultura de subsistência estavam inteiramente enraizados na cultura dos cataguases que habitaram a região. Até mesmo a presença da carne de macacos na mesa dos colonos foi uma herança indígena, da mesma forma que com muita constância – e por que não dizer, diariamente – consumia-se o milho e seus derivados. O padre Antonil, observador arguto dos habitantes da hinterlândia brasileira, anotou em sua obra que o milho era alimento fundamental no prato dos mineiros, mesmo porque servia, também, para a alimentação dos escravos e dos animais de tração. Assim, era mais importante do que o feijão, pois este não era apropriado ao consumo animal, ainda que dele fizessem uma quantidade variada de pratos que serviam, essencialmente, aos senhores das fazendas e, às vezes, a algum viajante que por ali passava. Na sua grande maioria, a mesa do mineiro era farta de produtos de milho.
Sustentando a área de mineração e os centros urbanos que dela se avizinharam, a agricultura sul-mineira, no entanto, experimentou períodos críticos pela falta de implementos e maiores cuidados por parte da Coroa portuguesa, ávida na extração cada vez maior de ouro e diamantes. Para isso, muito contribuiu o desconhecimento técnico de arados e fertilizantes – utilizando-se em grandes proporções a queimada – que foram objeto, inclusive, de observações de outro não menos ilustre viajante, Auguste de Saint-Hilaire, que anotou em sua primeira passagem por Minas Gerais, em direção a São Paulo: “...adotem os mineiros o uso do arado e fertilizante e não mais terão necessidades de destruir suas matas; e essas terras, que eles dizem perdidas sem remédios, dar-lhes-ão todos os anos abundantes colheitas”. Isso deveria ser uma tônica, ainda mais quando o esgotamento das minas de ouro afugentou a população para áreas agrícolas que, sem o necessário cuidado com a plantação, estariam fadadas ao esgotamento total e, de acordo ainda com o festejado viajante, estariam vivendo “numa terra acabada, não havendo consolo para a lembrança.” É uma realidade que constatamos com muita frequência neste país.
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* Historiador e sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais
