Renato Russo, em seu show “Plateia Livre”, convida os espectadores a pensarem sobre o amor. Antes de tocar “Vento no Litoral” (a corda que faltava para a pessoa se enforcar, se permitem minha opinião; Legião é profundo, mas deprime), ele pergunta quem dali já havia sofrido por amor. Logicamente, muitas pessoas se manifestam. Renato encerra a discussão com um argumento, no mínimo, polêmico: “Quando o amor é verdadeiro, não existe sofrimento”. Discussões à parte, sinto discordar. Pois talvez não exista um amor mais verdadeiro do que aquele que dedicamos aos nossos times de futebol. Verdadeiro e igualmente sofredor. Que o digam os corinthianos...
Dessa discussão de amor e futebol, nasceu o título do filme que trago até vocês hoje: Histórias de Amor duram apenas 90 minutos. Filme nacional, estrelado pelo casal – dentro e fora das telas – Caio Blat e Maria Ribeiro, com direção de Paulo Halm. Paulo se destacou como roteirista de sucessos como Pequeno Dicionário Amoroso e Guerra de Canudos, mas seu carnaval é com o longa. A história gira em torno do casal Zeca (Caio) e Julia (Maria), opostos perfeitos, pintura clássica de contradição. Ele é um escritor em crise criativa. Seu livro tem um grande apelo, mas não sai da página 30. Ela sabe exatamente o que quer. Está tirando o doutorado e pleiteando uma bolsa de estudos na França. O filme é um retrato quase fiel da chamada “geração perdida”, homens de 30 e poucos anos que não sabem o que querem da vida e apenas “sobrevivem”, sem maiores ambições. Não enfrentam os desafios impostos pelo cotidiano, nem se enveredam por novos caminhos, percursos, objetivos. E, analisando o Brasil hoje, a tendência é que essa situação só piore, afinal, nossa juventude está crescendo sem referências. O que esperar de um homem de 30 anos que insiste que Cine é rock’n roll?
Voltando ao filme: despretensiosamente, a situação vai sendo apresentada. Zeca é infeliz, mas acomodado, enquanto Júlia é ativa, espontânea, rodeada de amigos e programas. Tudo muda quando Zeca começa a acreditar que Júlia tem um caso. Com outra mulher. Uma de suas alunas, Carol. É uma espécie de Dom Casmurro às avessas, já que, ainda que o diretor abuse da sensualidade das duas mulheres na construção da narrativa, todo o “romance” se faz na cabeça inventiva de Zeca. Sempre morno, me apaixonei pela história quando Zeca conta à Carol como conheceu Júlia. Apaixonada pela cultura judaica, Zeca sai em busca de uma mulher judia. Sem sorte em sua procura, ele vai ao cinema assistir a um documentário sobre os judeus durante a segunda guerra. Aos cinco minutos de filme, já completamente tomado pelas lágrimas, uma mão lhe estende um lenço. Era Júlia. Carol então questiona: “Mas Júlia não é judia”, no que Zeca lhe responde: “Não é. Mas você já pediu dinheiro emprestado pra ela?” A piada é boa, mas o melhor é a sequencia do diálogo. Antes de deixar Zeca sozinho, Carol sussurra: “Eu sou judia...”
Um drama romântico. Um romance dramático. O filme, parafraseando Janaina Pereira, diverte sem ofender, conquista sem machucar. E mostra como somos seres constantemente insatisfeitos. Buscamos a felicidade no mar, mas esquecemos que não sabemos nadar. Histórias de amor duram apenas 90 minutos. Mas, se for final de campeonato, depois dos 90 minutos, ainda existe a possibilidade da prorrogação e dos pênaltis. Pelo menos, uma certeza a gente tem: empatado, nunca termina.
Galerinha, por hoje, é isso. Pra quem curte Raul, domingo, em Varginha, acontece o primeiro “Toca Raul”, um festival em homenagem ao eterno maluco beleza. Quinze bandas se revezam no palco, entre elas Sissibonaflá, Jardim do Sapo e Os 6 Trêis. Para quem não tem nada planejado, fica a dica! A partir das 14h, dia 24, na Praça Jardim do Sapo, em Varginha. Para outras informações, acesse:
Para encerrar hoje, um verso da música “Imperfeito”, da banda mineira Pato Fu. Deixo a pergunta pra vocês: “O que há de errado em ser tão errado assim?”
Vem ni mim, sexta-feira!
Paola Tavares


