Andei sumida. Na verdade, deixei de escrever na última semana. Peço desculpas aos meus queridos sete leitores que sentiram-se órfãos das Entrelinhas. O que aconteceu, e ainda está acontecendo, é que estou de mudança. Se você, alguma vez na vida, se mudou, sabe do que eu estou falando. São caixas e mais caixas espalhadas pela casa. As ferramentas perdidas. A burocracia da imobiliária, da Cemig, da Copasa. Mudanças sempre me deixam perdida. Mas, hoje tudo volta ao normal. E vejam vocês, que essa será a primeira edição da coluna com a Dilma eleita. Confesso que, como feminista que sou, achei que ficaria feliz quando uma mulher assumisse a presidência do Brasil. E se ela fosse mineira, então, quanto orgulho! Pois é. As eleições vieram, acabaram, e eu continuo com a sensação de que ninguém viu o que eu vi. É Minas Gerais invadindo Brasília, mais uma vez. E o Acre permanece como lenda urbana brasileira...
Falando em Brasília, a gente entra na banda de hoje. A capital federal, além de políticos, dinheiro, cuecas e panetones, têm uma cena musical muito forte. Não é preciso citar todos os bons músicos e bandas que de lá saíram. (Se você tem menos de 25 anos, vou quebrar seu galho, tá? Vamos lá: Plebe Rude, Aborto Elétrico, Legião Urbana, Capital Inicial, Cássia Eller, Raimundos...entenderam, né?). Se politicamente falando, a vontade é de dar uma de Osama Bin Laden e explodir as torres do Palácio do Planalto, musicalmente, Brasília nos presenteia com novos ritmos e misturas, espécie de afirmação de nossa brasilidade.
Móveis Coloniais de Acaju. Independente, mas não desconhecido. Crítica, público e banda já tiveram seu affair, promovido pela MTV: nas últimas edições do prêmio, o Móveis concorreu como Melhor Show e Rock Alternativo. Os prêmios, não levaram. Em compensação, fãs...
A banda surgiu em 1998, no mesmo estilo de tantas bandas independentes: um grupo de amigos, com ideias para um som diferente e muita vontade de dar a cara pra bater. Formação definida era o momento do batismo. Um dos integrantes, Leonardo Bursztyn (atualmente doutorando de Economia pela Universidade Harvard, EUA), lia um romance policial francês em que um ladrão rouba um bilhete de loteria de cima de uma mesa de acaju, madeira nobre utilizada na fabricação de móveis coloniais. Ok. O nome, Móveis Coloniais de Acaju. Um nome forte pede uma explicação idem. Com isso, os integrantes se puseram a imaginar um universo no século XIX, em que portugueses e índios Javaés, da Ilha do Bananal, no atual estado do Tocantins, se unem para expulsar invasores ingleses das terras tupiniquins, o que originaria a Revolta do Acaju. Uma clara referência à Batalha dos Guararapes, em que portugueses e brasileiros uniram-se contra holandeses, no século XVII.
Pronto! Nome e história debaixo do braço era hora de cair na estrada e levar o rock pelas estradas do país e do mundo. Até alcançar certa dose de fama, os caras tiveram que trabalhar muito. De todo esforço, no ano passado, um grande passo na carreira, uma entrevista à revista Época, da editora Globo. Indo de encontro ao pensamento dos músicos, a pergunta que encabeçava o bloquinho de anotações do repórter não poderia deixar de ser “Por que esse nome?”. E lá se vão os meninos e a criativa Revolta do Acaju. Agora, vem a melhor parte: o amigo Google-jornalista, não procurou confirmar os fatos e tomou a versão dos brasilienses como legítima. Mas, na verdade, tudo não passava de um grande trote. Um capítulo Quixoteano da história brasileira. Uma banda independente, de nome esquisito, que passa um trote numa das maiores publicações do país. Só tenho uma palavra: BRILHANTE!
As músicas seguem um ritmo marcado pela combinação de percussão e sopro. O clássico baixo e bateria, misturados com gaita cromática, flauta transversal, sax e trombone. As letras são dotadas de uma poesia doce, infantil. O último trabalho lançado, o segundo CD da banda, c_mpl_te (complete), foi produzido por ninguém menos que Carlos Eduardo Miranda, que, entre outros grandes nomes, lançou Skank e Raimundos. Particularmente, a baladinha do disco, a música “O Tempo”, é a que mais me chamou a atenção. Lembra muito o som de outra banda, Los Hermanos, ainda que muitos discordem de mim. Tem uma pegada de ska, com o rock-marchinha típico dos cariocas dos Hermanos. E traz o relato daqueles que vivem a contradição e tortura do relógio dos amantes: “Distante é devagar, Perto passa bem depressa assim”.
Ficou curioso? Interessou-se em saber mais sobre Móveis Coloniais de Acaju? Eu posso ajudar. Miranda, além de produtor, também é um dos idealizadores do site Trama Virtual, projeto de distribuição online de artistas independentes por MP3. Segue o link:
http://tramavirtual.uol.com.br/ Hoje, encerro sem dicas para o fim de semana. No meu caso, ele será de mudança, carreto, móveis desmontados e caixas. Muitas caixas. Com uma pausa de 90 minutos para ver o Tricolor em campo no Majestoso, clássico São Paulo e Corinthians. São três anos e meio sem vencer o Timão, que vem embalado pelos 4 a 0 sobre o Avaí, com 2 gols de Ronaldo. É, pensando bem, serão muitas emoções pra um fim de semana só. Ainda bem que eu nem gosto de futebol... (8D)
Vem ni mim, sexta-feira!
Paola Tavares



