Entendidos e entendidas_ a diversidade e o lugar do desejo
Marcelo Perilo da UFG (Universidade de Goiás) fala da construção e “desconstrução” de conceitos em sua tese de mestrado.
Por Roberta Nogueira
Noticiarama: “Entre árvores e paredes”, o local do desejo influencia o desejo e na viabilização do mesmo?
Marcelo Perilo: Na verdade ideia era refletir sobre como é possível realizar possibilidades de acesso ao desejo e configuração de espaços eróticos em distintos ambientes. Então, quando falo de “árvores” ou “paredes”, eu estou remetendo à ideia da minha pesquisa de trabalho de campo num bosque (árvores) e numa “boite” (paredes).
Nos dois ambientes os adolescentes que eu pesquiso conseguem ter sociabilidades, só que essas sociabilidades não são totalmente livres, existem controles.
No parque o controle que é exercido e limita o usufruto de prazeres, como, beijos, mãos dadas, considerando que são “gays” e lésbicas, é a homofobia, porque tem como agentes os transeuntes, usuários do parque, que às vezes agem de maneira violenta e agridem fisicamente ou os próprios policiais, que cerceiam o usufruto do prazer desses adolescentes no parque.
Agora, na “boite” existe uma segurança que permite que eles dancem, beijem, deem as mãos; só que o ambiente cerceia de outra forma, porque lá, nesse ambiente comercial, que é uma matinê, eles não têm acesso à bebida alcoolica, à “dark room”, que seria um espaço, digamos, garantido para manifestações eróticas, como ações e práticas sexuais.
Noticiarama: Adolescendo homossexualmente_ visibilidade e possibilidades.
M.Perilo: A proposta é pensar que sujeitos na adolescência têm usufruto de sua sexualidade e também já mantêm relações sexuais. Agora, a grande questão é como essa demanda de prazer e lazer nesses sujeitos pode ajudar a gente a refletir sobre idade de consentimento, o que é ou não possível em se tratando de maior idade legal e demandas éticas para pesquisa.
Então, não é só a adolescência que traz essa série de potenciais de reflexão, mas a demanda de desejo, a questão relacionada a gênero, à sexualidade somadas à questão étnico- racial; porque o acesso ao usufruto de prazeres e lazeres está limitado ou potencializado mediante cada um desses marcadores sociais. Se o sujeito é rico, homem, morador de lugares privilegiados na cidade, que são áreas nobres, existe uma oportunidade de usufruto de ambientes, digamos, muito grande. Agora, se o sujeito é pobre, mora na periferia e não tem grande poder de consumo, talvez o acesso a lugares e ambientes seja limitado.
Para pensar na cidadania, inclusive nos Direitos Humanos, é necessário pensar em “qual é o sujeito.” Os sujeitos todos são marcados por gênero, por raça, sexualidade, classe; então não dá pensar no sujeito universal. Isso interfere diretamente no âmbito político da nossa reflexão na sociedade.
Noticiarama: Meninos, meninas e a “saída do armário” nos dias de hoje.
M.Perilo: É muito destacado em vários estudos que a visibilidade sobre a sexualidade no âmbito nacional, pensando Brasil, tem sido muito maior a partir da segunda metade do século XX, com destaque para a década de 90. Isso tem a ver com a ampliação do mercado, ou seja, a criação de bares, “boites”, saunas, cinemas, destinados a esse público de “gays”, lésbicas, travestis, transexuais; tem a ver com a criação de revistas, “blogs”; tem a ver com a emergência de políticas públicas e a atenção do Estado para essa população e também com a atuação do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transex).
Então, uma série de circunstâncias contribuiu para que no Brasil, agora na década de 2010, nós tivéssemos uma amplitude, uma atenção e um cuidado ainda maior com o tema. E isso certamente permite que a geração atual de adolescentes tenha usufruto de bens e serviços muito maior que aqueles e aquelas que viveram a sua adolescência na época 60 e 70 no Brasil, durante a ditadura. Sendo que nessa época havia uma repressão enorme inclusive do governo ditatorial.
Fazendo uma rápida comparação entre essas duas décadas do século XX e a primeira e segunda décadas do século XXI, existe uma oportunidade enorme de usufruto de prazeres e lazeres nessas últimas. Muito diferente do que antes poderia existir.
Agora, novamente remetendo à minha resposta anterior, caso a pessoa seja pobre, seja limitada no usufruto da cidade, more na periferia e não consiga ter acesso a outros lugares, talvez ela não tenha usufruto dessa grande visibilidade da homossexualidade.
Mas tal situação muda em certas ocasiões, por exemplo, quando ocorrem as paradas do Orgulho LGBT, que são manifestações políticas e de visibilidade. A cidade se transforma porque naquele dia, naquela situação bem oportuna, os que saem dos seus ambientes usam da avenida, do espaço central da cidade para falar do respeito e do orgulho de ser quem são. E pessoas heterossexuais se somam a essa luta por uma maior abertura para a vivência da sexualidade; talvez “despertadas” por Michel Foucault, que defendia a ideia de que o dispositivo da sexualidade, como um conjunto de regulações sociais sobre o sujeito e sua sexualidade, atua em todos e todas. Então, mesmo heterossexuais que por ventura teriam mais liberdade de gozo em certos ambientes, também sofrem regulações. Por exemplo, existe uma vigilância enorme no caso de pessoas de idades muito diferentes se relacionando (um homem de trinta com uma garota de quinze anos). Todos e todas estão submetidos a regulações e vigilâncias sobre a sexualidade.
Agora, é necessário destacar que “gays”, lésbicas e especialmente travestis podem ter prejuízo no seu usufruto cotidiano do prazer e do lazer nas cidades, porque a repressão sobre esses sujeitos é muito grande. Mas enfim, essas são questões importantes para a gente pensar; lembrando sempre de que q sexualidade é uma demanda que dever ser refletida como política.
