AS TERRAS ALTAS DA MANTIQUEIRA – I
(ALAGOA)
O Prof. Lewis Mumford, um dos grandes estudiosos da civilização antiga, principalmente naquilo que respeita à formação das cidades mesopotâmicas, gregas e romanas, ensina que “na cidade forças e influências remotas se fundem com o local”. Entende ele que as forças e as influências mais antigas não podem ser perdidas de vista quando procuramos reconstituir a vida de uma cidade em várias fases de sua história.
Não restam dúvidas de que manifestações culturais, religiosas e políticas fazem a diferenciação das cidades e condicionam e limitam os contornos e a significação de cada uma delas, em qualquer momento de sua existência. Este, por exemplo, seria o caso aqui presente, quando, ao começarmos a falar das cidades que compõem o circuito conhecido como Terras Altas da Mantiqueira, indicássemos este ou aquele aspecto diferenciador, mesmo porque eles existem e estão presentes em cada um dos seus munícipes.
No entanto, o que queremos enfatizar aqui não é a diferença, mas a semelhança que existe entre elas, ou seja, aquilo que as uniu em torno de um projeto bem elaborado e de feliz iniciativa, trazendo para essas cidades o resgate de suas identidades enquanto formadoras de parte do território meridional das Minas Gerais, enquanto detentoras do orgulho de serem mineiras, de serem responsáveis por um dos mais significativos patrimônios históricos deste Brasil, forjadas que foram com a perseverança e a esperança de um amanhã sempre melhor.
Os estudos versando sobre a região são raros, porém, além de conseguir informações preciosas nas bibliotecas municipais e com alguns moradores, verifiquei que o interesse pela história local não morreu, ao contrário, estão sendo produzidos trabalhos interessantes buscando as raízes de suas cidades. E isto é deveras alentador, porque somente a partir da formação de uma história regional é que um dia teremos escrita a verdadeira História do Brasil.
Vejamos, então, o que cada uma dessas cidades – Itamonte, Pouso Alto, Passo Quatro, São Sebastião do Rio Verde, Alagoa, Virgínia, Delfim Moreira, Itanhandu e Marmelóplis - tem a nos contar nestes artigos que vão, em muitos momentos, marcados por agradáveis passagens por suas terras e pelo contato com suas gentes. Começamos com Alagoa.
De acordo com a tradição oral, o paulista Francisco Martins Lustosa, acompanhado de outros conterrâneos, saindo de Mogi das Cruzes, onde residia, teria atravessado a Mantiqueira por volta de 1734 e fixado residência em Alagoa, que então era capela filial de Aiuruoca. Ali esteve até 1737, ocasião em que foram batizadas suas filhas Maria e Teresa, tendo, por isso mesmo, ingressado na Irmandade do Santíssimo Sacramento de Aiuruoca. De acordo com os estudos de Itamar Bopp, em sua obra “Notas genealógicas”, também Simão da Cunha Gago teria residido em Alagoa, além do padre Felipe Teixeira Pinto, cujo nome aparece pela primeira vez em documento paroquial de 1734. Junto com Simão da Cunha Gago atravessaria em 1744 a Mantiqueira, em direção ao rio Paraíba do Sul, onde fundariam a Vila de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova (atual Resende).
Outros primeiros moradores foram o capitão Francisco Corrêa da Costa e seus dois irmãos, Simplício Corrêa da Costa e Vitorino Ribeiro da Costa, que se estabeleceram em Baependi, entre os anos de 1752 e 1753 e, posteriormente, teriam se transferido para a freguesia de Nossa Senhora do Varadouro, denominada então Lagoa do município de Aiuruoca.
O Cônego Trindade nos informa que em 1730 surgiu naquela região a capela de Nossa Senhora do Rosário da Alagoa de Aiuruoca. Essa capela foi elevada a curato em 27 de setembro de 1758. Nesse mesmo ano, segundo informações do Dr. Heitor Antunes de Souza (“Esboço histórico dos municípios de Itanhandu e Itamonte”) “severas providências foram tomadas contra alguns mineradores que abriram uma picada que ia sair no rio Paraíba”, o que reforça a tese de que já existia um caminho, ainda que ilegal, ligando a região ao Rio de Janeiro, sem passar pelos registros, primeiro o de Capivari, depois, o da Mantiqueira, aliás, caminho este trilhado por Simão da Cunha Gago e o padre Felipe Teixeira Pinto.
Era distrito de Nossa Senhora do Rosário da Alagoa, município de Aiuruoca, e, por Lei nº 728, de 18 de maio de 1855, foi elevada a paróquia.
Incorporada a Itanhandu por Lei nº 843, de 7 de novembro de 1923 e, posteriormente, a Itamonte por decreto-lei nº 148, de 17 de dezembro de 1938.
Desmembrada de Itamonte, virou município e cidade em 30 de dezembro de 1962, por força da Lei nº 2764. A matriz local é consagrada a Nossa Senhora do Rosário e data de 1855.
Suas principais atividades estão centradas na agropecuária e na agroindústria.
* Historiador. Sócio correspondente do Instituto Histórico de Minas Gerais
