terça-feira, 21 de dezembro de 2010

COLUNA


TERRAS ALTAS DA MANTIQUEIRA – II

(DELFIM MOREIRA)



O atual município de Delfim Moreira, “uma joia incrustada na legendária serra da Mantiqueira”, conforme dizem os seus moradores, é banhado pelo rio Santo Antonio e ali, em torno das lavras de Moniz Pinto Coelho da Cunha surgiria o arraial em terreno que fora doado por Antonio Garcia Velho, este um bandeirante que faiscou ouro por volta de 1700.

Assim como as demais cidades, Delfim Moreira também está ligada ao passado bandeirante, informando a tradição oral que por ali teria estado Borba Gato, quando de sua investida aos sertões das Gerais, o que não seria de todo improvável, considerando-se que esse bandeirante esquadrinhou grande parte do território mineiro, inclusive o sul da região.

A história de Delfim Moreira confunde-se, em determinados momentos, com a história da vizinha cidade de Itajubá e há que se ter certo cuidado nas denominações originais, quais sejam: Descoberto de Itajubá e Soledade de Itajubá, topônimos referentes ao local onde foi descoberto ouro no limiar do século XVII.

O Prof. Armelim Guimarães é autor de obras significativas sobre Itajubá e, na principal delas – História de Itajubá – pudemos anotar um importante esclarecimento sobre os primeiros povoadores da região, ratificando o nome de Garcia Velho. Vejamos o que diz: “havia Miguel Garcia Velho transposto a Mantiqueira nas imediações de Passa Quatro, seguindo pelos vales da Bocaina, afastando-se, pois, da rota já trilhada por outros exploradores, a qual ia dar no rio Verde e Baependi. Transpôs a serra dos Marins e o planalto de Capivari no qual andou descobrindo algumas pintas de ouro. No Córrego Alegre e nas águas do Tabuão encontrou maiores indícios do cobiçado metal. Pretendia alcançar a Serra do Cubatão, mas a mina do Itagybá foi a que mais o seduziu, e onde permaneceu por mais tempo, dando início ao povoado. Era 1703”.

Outra obra significativa, esta específica sobre Delfim Moreira, é a do Prof. Guido Gilberto do Nascimento – Delfim Moreira, achegas à sua formação histórica – e ali encontramos consignado que as descobertas feitas por Garcia Velho foram anteriores ao ano de 1723, considerando-se os termos de um atestado de autoria do padre João da Silva Caualo, que vivia de mineração por aquelas paragens, e que transcreve em sua obra, especificando o referido padre que, juntamente com Geraldo Cubas Ferreira, havia retornado para as minas de Itagybá, após algum tempo em andanças pelo rio Sapucaí, avivado por notícias de descobertas do metal em região mais abaixo de Itagybá, certificando que “donde estou assistente, por nelas achar ouro de sobra e com conta pelo que tenha visto em algumas experiências que fiz, e pelo ouro, que tenha visto...Novas Minas de Itagybá em novembro 3 de 1723 anos”.

Em 23 de abril de 1752 foi ali celebrada a primeira missa na capela dedicada a Nossa Senhora da Soledade e, com as novas descobertas de ouro, a região tornar-se-ia um curato e, então, elevada à freguesia de Nossa Senhora da Soledade de Itajubá, em 24 de novembro de 1762.

O esgotamento das minas de ouro da região foi uma realidade constante a partir do terceiro quartel do século XVIII e com a chegada ali do padre Lourenço da Costa Moreira, em 1819, a localidade estaria fadada a ver diminuída a sua importância, uma vez que, segundo o mesmo Armelim Guimarães, em sua outra obra – Itajubá e sua história – o referido padre “não gostou do lugar, frio demais, terreno acidentado, de glebas impróprias para certas culturas” e, por isso mesmo, desceu “em caravana, serra abaixo, até o vale do Sapucaí, onde, segundo informações que tinha, havia terras férteis e excelente clima, para onde poderia transferir a sede da Freguesia”. E assim o fez em 19 de março de 1819, nascendo o atual município de Itajubá, à época, Boa Vista do Sapucaí.

Em 8 de novembro de 1831 a freguesia de Nossa Senhora da Soledade de Itajubá é suprimida e a sede seria transferida definitivamente para a Boa Vista do Sapucaí.

No dia 14 de julho de 1832 um decreto imperial elevava o então curato da Boa Vista do Sapucaí à categoria de freguesia, passando a sede da Capela Velha de Nossa Senhora da Soledade (Delfim Moreira) para a Capela Nova (Itajubá).

Em 28 de setembro de 1848, através da Lei provincial nº 355, a nova freguesia de Itajubá seria elevada à condição de vila, tendo a ela anexado, como um dos seus distritos, o de Soledade de Itajubá (atual Delfim Moreira). Foi incorporado ao município de Cristina em 1868, por força da Lei nº 576, de 22 de julho e reincorporado a Itajubá por Lei nº 1648, de 14 de setembro de 1870.

Município e cidade por decreto-lei nº 148, de 17 de dezembro de 1938, com o nome de Delfim Moreira, sendo instalado o novo município em 1o de janeiro de 1939, tendo sido empossado, como primeiro prefeito, Joaquim Honório de Melo, que governou de 1939 a 1945. Seu nome é uma homenagem a Delfim Moreira da Costa Ribeiro, Ex-Presidente da República e natural da cidade de Cristina.

Em 1953, por força da Lei nº 1039, de 12 de dezembro, foi criado o distrito de Marmelópolis, o qual foi perdido em 1962, quando este obteve os predicados de município, em 30 de dezembro daquele ano, nos termos da Lei nº 2764.

Suas atividades econômicas hoje incluem as indústrias de borracha, de plásticos, de couro, laticínios, além da agropecuária, porém, devemos registrar que ali também se instalara, a exemplo da vizinha Marmelópolis, importantes fábricas processadoras do marmelo, como a Colombo, a Cica, a Peixe e a Fruticultores.

Guido Nascimento anota que “os primeiros pés de marmelo foram mandados vir de Portugal pelo Barão da Bocaina e plantados nas localidades de São Francisco dos Campos e Córrego Alegre”. Esclarece, ainda, que em 1919 surgiram ali as primeiras fábricas que eram alimentadas por “grandes safras frutíferas (a maior em 1956, atingindo uma produção de 13 milhões de quilos de marmelo). Esta atividade prolongou-se até aproximadamente 1980, quando estas culturas começaram a ser desvalorizadas e a produção entrou em declínio”.


* Historiador e sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.