O valor da memória documental
Paulo Paranhos*
Chegaram-me às mãos algumas obras sobre Caxambu: a do escritor e músico, Antonio Maurício Ferreira – “Às margens do Bengo”; a da poetisa Anita Tuna – “Caxambu e você”; a da cronista Alexina Sá – “Caxambu de ontem e de hoje” - e a obra do Dr. Henrique Monat – “Caxambu”. Trata-se de excelentes depoimentos sobre a cidade, os seus arredores e o seu povo. Eu, que não nasci aqui, fiquei embevecido com as palavras de uns e de outros quanto à evolução que Caxambu experimentou desde a sua passagem de vila à condição de cidade. Os textos são marcados com cores fortes e vibrantes, principalmente naquilo que respeita à riqueza maior da cidade: suas águas minerais. Tanto Antonio Maurício quanto Anita, fazem uma verdadeira ode a esse “milagre” da natureza, primando na descrição quase que pormenorizada da geografia urbana, estatísticas as mais diversas e interessantes, tanto no campo de negócios quanto nas áreas turísticas e educacionais. Alexina, por sua vez, também com grande entusiasmo fala da gente caxambuense, da saudade dos seus personagens, traçando com grande propriedade um retrato quase que perfeito do cotidiano, afirmando com grande convicção que “os anos passam, mas as impressões ficam no nosso subconsciente, numa comparação desoladora dos tempos idos com os tempos de hoje”. Suas anotações são formidáveis passagens sobre, principalmente, a Caxambu de ontem, que considerava “divina e singular, onde se reunia a flor da sociedade brasileira”.
Contudo, após a leitura dessas obras, o que salta aos olhos do leitor é o conhecimento fantástico que detinha o Dr. Henrique Monat sobre as águas minerais, mesmo porque foi para estudá-las que se deslocou do Rio de Janeiro para estas terras em 1894, vindo de trem numa verdadeira aventura que foi em sua obra contada com detalhes que chegam às raias da comicidade, não fosse ele um homem extremamente sério e compenetrado em suas ações.
Em que pesem todas as narrativas bem realizadas por Anita e por Antonio Maurício, o texto de Henrique Monat é um chamativo significativo para o começo da urbe. E, mais ainda, foi contemporâneo daquela formação, e pode constatar, ipso facto, a verdadeira face de um aglomerado de casebres, ruas as mais precárias possíveis, um incipiente comércio e uma “mina de ouro” regurgitando sobre o solo caxambuense. Relata, com intensa emoção, as curas praticadas com o uso constante e correto deste ou daquele tipo de água que, diga-se de passagem, à época não eram tantas, ou melhor, ainda não tinham aflorado da forma como hoje as conhecemos. O Dr. Monat foi uma testemunha singular na formação histórica de Caxambu, relembrando passagens de personagens que formaram a nossa história: João Constantino, Manoel Joaquim, o conselheiro Mayrink e tantos outros; sua obra deveria ser um norte para os estudantes do município, pois ali estão os alicerces daquilo que somos hoje.
Tenho a impressão segura que a obra de Henrique Monat abriu oportunidade ímpar para que outras tantas viessem em sua esteira, sem desmerecer o valor de cada uma delas, agregando, com o passar do tempo, novos valores e significativas passagens da História de Caxambu.
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* Historiador e sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.
