O retorno dos Inconfidentes
O “Estado de Minas”, do último dia 3 de abril, informou, em excelente matéria de Gustavo Werneck, que os restos mortais de três inconfidentes serão traslados para o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, por ocasião das comemorações do dia 21 de abril. Trata-se de uma iniciativa do Ministério da Cultura, através do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), que recupera, com décadas de atraso, a homenagem a homens que se propuseram a dar uma resposta contundente à arbitrariedade da administração metropolitana na região das Minas Gerais no final do século XVIII. Os restos mortais desses três inconfidentes ficarão, juntamente com outros, no Panteão daquele museu. Ali, desde 1942, encontram-se as lápides de Alvarenga Peixoto, Tomás Antonio Gonzaga, Luiz Vaz de Toledo Piza, Álvares Maciel, destacadamente, junto com Joaquim José da Silva Xavier – o Tiradentes -, os mentores da Inconfidência Mineira. De igual forma, uma lápide vazia honra aqueles que para ali não foram trasladados, após as tratativas havidas pelos governos português e brasileiro, em 1936, quando, então, foram trazidos para o Brasil os restos mortais dos inconfidentes degredados, numa iniciativa do Dr. Antonio Augusto de Lima Júnior, advogado e historiador. Contudo, três ficaram de fora e que agora deverão merecer ali o repouso eterno: Domingos Vidal Barbosa Lage, José de Rezende Costa e João Dias da Mota, que, chegados ao Brasil para identificação, foram enviados para a Universidade Estadual de Campinas onde ficaram cerca de 17 anos para pesquisas. O processo naquela universidade obedeceu aos mesmos parâmetros utilizados para a identificação de “Luiza”, considerada a primeira mulher brasileira e que aqui viveu há mais de 10 mil anos.
A História da Inconfidência Mineira registra Domingos Vidal Barbosa Lage, nascido em 1761 no Rio de Janeiro e falecido em 1793 em Cabo Verde, para onde havia sido degredado. Era médico, formado pela Faculdade de Bordeaux, na França, aonde travou amizade com inconfidentes norte-americanos, o que lhe valeu, no retorno ao Brasil, um processo de cumplicidade na revolta de Minas Gerais. Sofreu a pena de 10 anos de degredo, falecendo logo no ano em que chegou a Cabo Verde. Além de médico era poeta e deixou, paradoxalmente, odes a dois vice-reis do Brasil.
José de Rezende Costa nasceu na vila de Rio das Mortes em 1765 e faleceu em Lisboa em 1841; era capitão de milícias e proprietário rural no vale do rio das Mortes, também condenado ao degredo por 10 anos em Cabo Verde. Ali serviu como ajudante de secretaria do governo, escrivão da provedoria da real fazenda e encarregado do comando da praça da vila da Praia. Retornando a Lisboa em 1804, serviu como escriturário do erário régio e foi autor de diversos artigos sobre a região das minas de ouro.
João Dias da Mota, também capitão de cavalaria, era proprietário de terras em Congonhas do Campo e foi um grande ativista no processo de inconfidência, compartilhando das reuniões maçônicas que aconteciam em várias localidades do então território mineiro.
Agora, com a intervenção do Ibram, os restos mortais desses inconfidentes serão definitivamente sepultados no Panteão do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, prestando-se, assim, a devida homenagem àqueles que, juntamente com outros idealistas, fizeram a grandeza das Minas Gerais.
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* Historiador e sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.
