É engraçado como as coisas acontecem. Parafraseando Skank, “vou dizendo na sequencia bem clichê”. Não é mistério nenhum que saí de casa em janeiro de 2005 pra ir estudar em Belo Horizonte. Com apenas 18 anos recém completados, dei minha cara pra bater. E como apanhei...um dos golpes mais duros foi a queda da obrigatoriedade do diploma, no fim do sétimo período. Foi triste, mas o mundo continuou. Muitas coisas aconteceram. A formatura demorou seis anos. Depois de passar por duas turmas, minha cerimônia foi com uma terceira, sem pompas, sem glórias, sem parentes, com um amigo especial: quando já tinha me acostumado aos rostos desconhecidos pelo salão, surge uma alegre e risonha Thamara do meio da multidão. O melhor presente da noite. Depois disso, com o fim desse ciclo, iniciei outro e vim pra Juiz de Fora fazer pós graduação. Na última semana, estive em Três Corações, revendo pessoas especiais. Aproveitei a viagem, e passei em Varginha, na secretaria da faculdade. Sob a alcunha de Sua Vez, na verdade, corria a boca pequena que se tratava da “Vez do Outro”. Nunca na história desse país algum pedido foi atendido logo quando solicitado. Não, não. Era sempre uma tortura. Requerimentos pra lá e pra cá e meses de espera. Nos acostumamos com essa rotina, que passou a fazer parte de nossa história acadêmica. Com o tempo, é possível levar tudo no bom humor. E na última segunda-feira, cheguei ao Sua Vez para pegar meu diploma, documento essencial para dar continuidade aos planos do futuro. (Pleonasmo, eu sei.) Sabia que na verdade, iria preencher um requerimento e que daqui há algum tempo é que o teria em mãos. Retomo a frase que abriu esse texto: é engraçado como as coisas acontecem. Em menos de três minutos, aquele pedaço de papel estava comigo. Três minutos. Momento de baixar a cabeça e desculpar-se com os amigos do Sua Vez. Oportunamente, a secretaria funcionou. Obrigada pela agilidade e pelo bom trabalho. Parece idiota e talvez até seja, mas foi uma sensação bem emocionante tê-lo em mãos. Enquanto o ônibus seguia de volta a Juiz de Fora, fiquei saboreando aquele diploma não-obrigatório e custoso. Vi o trote em BH, as primeiras aulas, o trabalho sobre O Rappa e a realidade da periferia, minha primeira resenha, minha primeira matéria, meu primeiro artigo, as festas, os choros, os rolos, os professores, as brincadeiras, nossa pequena turma de 12 grandes profissionais. Vi todas as mudanças, todas as casas, todas as repúblicas. Seis anos foi o tempo cujo tempo fez seu molde. Um molde vazado e ainda com arestas a serem aparadas. Mas a idéia do produto final é animadora. É só um pedaço de papel, nada mais. Ele pode molhar, pode rasgar, dobrar, amassar. Mas representa tanto! Nos tira um peso das costas e nos faz cumpridores de nosso dever. Por ele, saí de casa. Por ele, mudei de cidade. E por ele, oficialmente agora assino: JORNALISTA.
Meu reconhecimento demorou seis anos. Foi sofrido, mas seu sabor é único. Agora, imaginem alguém esperar mais de 20 anos pra ter seu trabalho reconhecido. Num cenário “Restártico”, é revoltante, contudo, verdade verdadeira. Mas, farei diferente: ao invés de lamentar o tempo demorado, vou enaltecer os louros colhidos. Até porque, as coisas demoram o tempo necessário para acontecer. Tarefa das mais difíceis é saber esperar, sem apavorar nem desistir. E ainda bem que Kleber Cavalcante Gomes esperou. É verdade que em alguns momentos, a vontade de pendurar as chuteiras, ou melhor, o microfone, foi maior. Mas ele esperou. Melhor pra nós que fomos enfeitiçados por essa mistura de rap, samba, soul, reggae e brega. Um som brasileiro nascido no Grajaú, periferia de São Paulo. Talvez por Kleber fique difícil saber de quem se trata. Ele é mais conhecido por Criolo. Nasceu Criolo Doido, nos tempos idos das Batalhas de MC’s. Hoje, só Criolo, um nome forte, condizente com a personalidade e a vontade de vencer.
http://www.youtube.com/watch?v=BlMaxbBOw4A – participação Altas Horas 16/07/11
Criolo nasceu em Santo Amaro, em 1975, mas cresceu e fincou raízes no Grajaú, região pobre da capital paulista. Já aos 12 anos mandava suas letras embaladas pela batida pegada do rap e hip hop. Autor de mais de 60 canções, entrou em estúdio somente em 2006, quando lançou Ainda Há Tempo. Entretanto, o verdadeiro reconhecimento banhado aos holofotes nacionais veio produzido por Marcelo Cabral e Daniel Ganjaman. Juntos, delinearam um perfil de som que faz uma mistura lírica, poética, envolvente, sem perder os traços originais de Criolo. Assim nasceu o mais recente trabalho, “Nó na Orelha”, um delírio alucinante, entorpecente e mágico. O disco foi primeiramente disponibilizado para baixar no site do artista. Em três dias, foram mais de 25 mil downloads. O site saiu do ar várias vezes. Dia 26 de maio, o lançamento físico do projeto, com CD e o maior xodó, o vinil, que foi prensado na República Tcheca, onde o trabalho fica mais em conta. São dez músicas, que misturam sons, ritmos e letras, num festival de arte e criatividade, impossíveis de categorizar. Criolo, sobretudo, passa em suas músicas uma brasilidade ímpar. O mais novo orgulho tupiniquim.
http://www.criolo.art.br/criolononaorelhahotsite - Download Álbum
“Bogotá” abre o disco com uma pegada de instrumentos de sopro misturados com uma pegada de música latina. Dá vontade de sair dançando, até Bogotá...porque “vai ser melhor que Pasargada, agradar até o rei”. “Grajauex”, dentro desse trabalho, é a que mais se aproxima do universo hip hop de Criolo. E, mais uma vez, a maneira como as batidas são misturadas nos levam para as periferias de todo o país. É trilha sonora de protesto, mas com uma letra mais marcada com rimas propositais, como “Grajauex”, “tríplex”, “Alex”. “Freguês da Meia Noite” é a balada brega, que na voz de Criolo, vira Cult, num bolero com a cara de São Paulo. Eu, que amo músicas bregas, me delicio sempre que a ouço. A menina dos olhos do disco, entretanto, é “Não existe Amor em SP”. O som é bem moderno e diferente, mas o brilhantismo fica a cargo da letra. Versos que nos fazem pensar, ainda que não proponham a paz mundial ou outras causas nobres, funcionam muito bem nessa pegada. Na música, Criolo nos brinda com uma das metáforas mais verdadeiras a que temos notícias:
“São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você”
A primavera é minha estação preferida. Apesar de gostar muito do fim de julho, período em que florescem os ipês, que eu amo. Flores são lindas, essência de vida, sinônimo de renascimento. Ainda assim, buquês são flores mortas. Num lindo arranjo. E Criolo ainda continua com o tapa na cara. Acho que nunca vi uma música capaz de traduzir em melodia nossa inquietação. Uma tradução que não acalma, pelo contrário, inquieta mais.
“Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu”
Ele fala de São Paulo, dessa grande metrópole cosmopolita brasileira, onde ninguém vale nada, vê nada, ouve nada. Onde tudo e todos somos números. Talvez, não exista mesmo, amor em SP. A chave de ouro vem com dois versos. Que tiram o fôlego. Pelo menos, o meu, que nasci com o péssimo hábito de intensificar todas as coisas que chegam até mim.
Meu reconhecimento demorou seis anos. Foi sofrido, mas seu sabor é único. Agora, imaginem alguém esperar mais de 20 anos pra ter seu trabalho reconhecido. Num cenário “Restártico”, é revoltante, contudo, verdade verdadeira. Mas, farei diferente: ao invés de lamentar o tempo demorado, vou enaltecer os louros colhidos. Até porque, as coisas demoram o tempo necessário para acontecer. Tarefa das mais difíceis é saber esperar, sem apavorar nem desistir. E ainda bem que Kleber Cavalcante Gomes esperou. É verdade que em alguns momentos, a vontade de pendurar as chuteiras, ou melhor, o microfone, foi maior. Mas ele esperou. Melhor pra nós que fomos enfeitiçados por essa mistura de rap, samba, soul, reggae e brega. Um som brasileiro nascido no Grajaú, periferia de São Paulo. Talvez por Kleber fique difícil saber de quem se trata. Ele é mais conhecido por Criolo. Nasceu Criolo Doido, nos tempos idos das Batalhas de MC’s. Hoje, só Criolo, um nome forte, condizente com a personalidade e a vontade de vencer.
http://www.youtube.com/watch?v=BlMaxbBOw4A – participação Altas Horas 16/07/11
Criolo nasceu em Santo Amaro, em 1975, mas cresceu e fincou raízes no Grajaú, região pobre da capital paulista. Já aos 12 anos mandava suas letras embaladas pela batida pegada do rap e hip hop. Autor de mais de 60 canções, entrou em estúdio somente em 2006, quando lançou Ainda Há Tempo. Entretanto, o verdadeiro reconhecimento banhado aos holofotes nacionais veio produzido por Marcelo Cabral e Daniel Ganjaman. Juntos, delinearam um perfil de som que faz uma mistura lírica, poética, envolvente, sem perder os traços originais de Criolo. Assim nasceu o mais recente trabalho, “Nó na Orelha”, um delírio alucinante, entorpecente e mágico. O disco foi primeiramente disponibilizado para baixar no site do artista. Em três dias, foram mais de 25 mil downloads. O site saiu do ar várias vezes. Dia 26 de maio, o lançamento físico do projeto, com CD e o maior xodó, o vinil, que foi prensado na República Tcheca, onde o trabalho fica mais em conta. São dez músicas, que misturam sons, ritmos e letras, num festival de arte e criatividade, impossíveis de categorizar. Criolo, sobretudo, passa em suas músicas uma brasilidade ímpar. O mais novo orgulho tupiniquim.
http://www.criolo.art.br/criolononaorelhahotsite - Download Álbum
“Bogotá” abre o disco com uma pegada de instrumentos de sopro misturados com uma pegada de música latina. Dá vontade de sair dançando, até Bogotá...porque “vai ser melhor que Pasargada, agradar até o rei”. “Grajauex”, dentro desse trabalho, é a que mais se aproxima do universo hip hop de Criolo. E, mais uma vez, a maneira como as batidas são misturadas nos levam para as periferias de todo o país. É trilha sonora de protesto, mas com uma letra mais marcada com rimas propositais, como “Grajauex”, “tríplex”, “Alex”. “Freguês da Meia Noite” é a balada brega, que na voz de Criolo, vira Cult, num bolero com a cara de São Paulo. Eu, que amo músicas bregas, me delicio sempre que a ouço. A menina dos olhos do disco, entretanto, é “Não existe Amor em SP”. O som é bem moderno e diferente, mas o brilhantismo fica a cargo da letra. Versos que nos fazem pensar, ainda que não proponham a paz mundial ou outras causas nobres, funcionam muito bem nessa pegada. Na música, Criolo nos brinda com uma das metáforas mais verdadeiras a que temos notícias:
“São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você”
A primavera é minha estação preferida. Apesar de gostar muito do fim de julho, período em que florescem os ipês, que eu amo. Flores são lindas, essência de vida, sinônimo de renascimento. Ainda assim, buquês são flores mortas. Num lindo arranjo. E Criolo ainda continua com o tapa na cara. Acho que nunca vi uma música capaz de traduzir em melodia nossa inquietação. Uma tradução que não acalma, pelo contrário, inquieta mais.
“Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu”
Ele fala de São Paulo, dessa grande metrópole cosmopolita brasileira, onde ninguém vale nada, vê nada, ouve nada. Onde tudo e todos somos números. Talvez, não exista mesmo, amor em SP. A chave de ouro vem com dois versos. Que tiram o fôlego. Pelo menos, o meu, que nasci com o péssimo hábito de intensificar todas as coisas que chegam até mim.
“Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você”
http://www.youtube.com/watch?v=f35HluEYpDs
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você”
http://www.youtube.com/watch?v=f35HluEYpDs
Não existe amor em SP
Nasceu Kleber, transformou-se em Criolo Doido, agora é só Criolo. Viu nas palavras uma forma de salvação. Antes mesmo de tornar-se ícone no universo hip hop, trabalhou com educação nas vielas do Grajaú de 1994 até 2000. Fez o ensino médio junto com sua mãe, que, ao matricular o filho, decidiu inscrever-se também. E continuou estudando. Formou-se em filosofia, com pós-graduação em línguas, literatura e semiótica. Hoje, montou um Café Filosófico no mesmo bairro em que tudo aconteceu. Criolo traz em si mais que personalidade, traz identidade. Num momento em que formação e informação colidem e fazem milhares de vítimas, suas músicas fazem pensar e repensar o lugar em que queremos chegar. Em entrevista dada ao repórter Marcos Preto, do jornal Folha de São Paulo, o rapper, magistralmente, costura seu raciocínio de forma sutil: "Quando você conhece só a pracinha, vai só até a pracinha. Mas quando descobre o cinema, cara, é uma loucura. Não dá mais pra voltar. Você já virou outra pessoa."
As pracinhas são fundamentais em nossa vida. Em muitos casos, é nosso primeiro contato com o mundo exterior, aquele além dos muros do nosso quintal. Mas como bem colocou Criolo, quando a gente conhece o cinema não tem como permanecer apático. Termino por aqui desejando a todos vocês cinema. Muito cinema pra todos nós!
Até a próxima semana!
Paola Tavares

