terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

COLUNA

Ruas de Caxambu

Ivon Curi, um verdadeiro “chansonnier”



A rua Ivon Cury, localizada no centro da cidade e inaugurada no ano de 1971, homenageia um dos seus filhos mais diletos: o cantor, compositor e ator caxambuense, nascido Ivon José Cury em 5 de junho de 1928, filho de José Kalil Cury e de Maria Cury. Cursou o ensino fundamental no antigo Ginásio Caxambu, recebendo seu diploma no ano de 1944. Segundo alguns de seus contemporâneos, Ivon tinha muita facilidade em aprender o inglês e o francês, graças aos ensinamentos de sua professora Blanche Lício. Aos 11 anos de idade, venceu um concurso de calouros em Caxambu, num júri presidido pelo famoso radialista Cesar de Alencar. Logo adiante, começou a cantar profissionalmente na ZY C2 Rádio Caxambu, então dirigida por seu irmão Jorge Cury. Em meados dos anos 1940 mudou-se para o Rio de Janeiro. Trabalhou no Laboratório Silva Araújo e foi vendedor de passagens da empresa aérea Panair do Brasil. No Rio também teve sua primeira oportunidade artística através de José Caribé da Rocha (dono do cassino do Copacabana Palace Hotel), que o contratou como “crooner” da Orquestra Zacarias, daquele hotel, momento em que entrou em contato com os maiores astros da época. Por sua facilidade com a língua francesa, sofreu influência do famoso cantor francês Jean Sablon, criador do sucesso “J’attendrais”, sucesso este que o fizera vencedor do concurso de calouros em Caxambu.

Em 1947 conseguiu seu primeiro contrato com a Rádio Nacional, apresentando-se como convidado nos programas de Emilinha Barbosa, Marlene, Dalva de Oliveira e Ângela Maria. Em 1948, Ivon já era o astro do programa "Ritmos da Panair", da mesma Rádio Nacional.

Foi eleito "O Rei do Rádio" e teve cinco de seus discos entre os dez mais vendidos do país, entre eles, "Me Leva" (com Carmélia Alves), "Farinhada", "João Bobo", "Feijão", "Ta Fartando Coisa em Mim", "Amendoim Torradinho" e "Xote das Meninas". Nessa época modificou seu estilo, passando a fazer mímicas e piadas, tornando-se um verdadeiro “chansonnier”, ao estilo do ator francês Maurice Chevalier.

Na década de 1950, Ivon transferiu-se para a Rádio Tupi e, adiante, para São Paulo, no momento em que era inaugurada a TV Tupi, tendo oportunidade de ser convidado para cantar com Hebe Camargo a música "Meu Pé de Manacá", considerado o primeiro musical da TV brasileira.

Em 1951, o diretor cinematográfico Watson Macedo convidou-o para a Atlântida, onde participou dos filmes da fase áurea das chanchadas, o que o transformou, efetivamente, num humorista de rádio, cinema e televisão. Cantava fazendo trejeitos, criando um estilo todo pessoal. Participou de diversos filmes: “Aviso aos navegantes”, “Aí vem o barão”, “Barnabé, tu és meu”, dentre outros.

Em 1954, iniciou sua carreira internacional, com grande sucesso, no Uruguai. Nessa época foi um dos artistas que mais recebia cartas de fãs na Rádio Nacional, sendo superado somente por Emilinha Borba e Marlene. Em 1956 realizou show também em Portugal, no então Teatro São Luís (hoje Teatro Municipal de Lisboa). Devido ao grande êxito dessa temporada, recebeu a Rosa de Ouro, distinção conferida pelo governo português a personalidades mundiais.

Em 1961, casou-se com Ivone Freitas Cury, de cuja união nasceram quatro filhos.

Em 1977, a gravadora Continental lançou o LP “Ivon Cury”, volume 26 da serie “Ídolos da MPB”. Em 1984 voltou a vida artística, festejando 40 anos de carreira, em 1987, com o disco “Ivon Cury ontem e hoje”.

Em 1993, além de ter comandado o programa “Show da Manchete” - na extinta TV Manchete -, estreou o espetáculo “A França e quinze saudades”, interpretando canções francesas, origem do álbum “Douce France”, seu último trabalho solo.

Dono de uma discografia invejável, com 27 discos gravados, sua última gravação foi a faixa “Forró do beliscão” (Ari Monteiro, João do Vale e Leôncio), incluída, no início de 1995, no disco João Batista do Vale (BMG), um tributo ao compositor João do Vale.

Dentre as canções que interpretou, registramos aqui uma, de Zé Dantas e Davi Nasser, do ano de 1953, prestando homenagem à sua cidade natal: Caxambu.



Vontade de ver de novo

Alguém sabido chamou saudade.

Pois bem, se isso é verdade,

Sinto saudades da minha cidade.



Caxambu, Caxambu, Caxambu,

Terra divina onde ninguém conhece a dor.

Caxambu, Caxambu, Caxambu,

Terra feliz que nos inspira tanto amor.



Caxambu, Caxambu, Caxambu,

Da seresta nas noites claras de lua

Caxambu, Caxambu, Caxambu

De certo amor enfeitiçando toda a rua



Caxambu, Caxambu, Caxambu,

Das noites frias geando nas madrugadas

Caxambu, Caxambu, Caxambu,

Das moreninhas como rosas perfumadas



Caxambu, Caxambu, Caxambu,

Faz um ateu, um descrente criar fé

Caxambu...

Faz um milagre de botar um morto em pé


No início da década de 1970, Ivon transformou-se em empresário da noite carioca, ao abrir a casa de espetáculos “Sambão & Sinhá”, na rua Constante Ramos, em Copacabana, idealizado por ele e frequentada por várias personalidades da República.

Na televisão, participou, pioneiramente no ano de 1966, do programa “Adoráveis Trapalhões com Renato Aragão, Wanderley Cardosoo e Ted Boy Marinoo, antecessor de “Os Trapalhões”.

Sua última participação na televisão foi no quadro humorístico de Chico Anysio "A escolinha do professor Raimundo", interpretando o gaúcho Gaudêncio.

Ivon Cury faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 24 de junho de 1995, deixando uma lacuna imensa no cancioneiro popular brasileiro.



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* Historiador