terça-feira, 10 de abril de 2012

COLUNA

O riso cada vez mais difícil


Abro parênteses em minhas incursões na história do sul das Minas Gerais, notadamente na recuperação dos personagens que deram nome às ruas de nossa cidade, para falar sobre uma personalidade nacional: Chico Anysio. Ao longo de sua vida artística, o humorista cearense, que neste dia 12 de abril completaria 81 anos de idade, nasceu na cidade de Maranguape, levando a gerações de brasileiros um humor sadio caracterizado por mais de 200 personagens criados a partir da observação do cotidiano nacional.

Francisco Anysio Vianna de Oliveira Paula Filho começou sua carreira no Rio de Janeiro aos 17 anos de idade como locutor da Rádio Guanabara. Com o advento da televisão, atuou no programa humorístico da extinta TV Rio intitulado “Aí vem Dona Isaura”. Após integrar o elenco de diversos outros programas, radicou-se definitivamente na TV Globo, a partir de 1971, apresentando o seu “Chico City”, um programa feito especialmente para ele e que daria a oportunidade de criar os mais diversos tipos com que, ao longo do tempo, faria a alegria da família brasileira.

Além de sua faceta voltada para o humor, Chico Anysio compôs cerca de 300 músicas, em parcerias as mais diversas, interpretadas por expoentes do cancioneiro nacional, assim como Dolores Duran e Dalva de Oliveira. Participou, também, de filmes e novelas de televisão.

Em uma entrevista dada à Revista Playboy, a ele foi indagado se, para a construção de seus tipos, ficava diante do espelho, ao que responde: “- Não, isso é uma brincadeira para o ator inglês Lawrence Olivier, que só faz um personagem por ano. Se o Olivier tivesse de fazer o Popó, o Pantaleão, o Azambuja, ele faria como eu faço: olhou na rua, não precisa nem espiar no espelho – está arquivado”.

Essa era a mágica de Chico Anysio: os personagens eram, na sua grande maioria, tirados do dia a dia dos próprios brasileiros, aonde vivemos, as nossas dificuldades, alegrias, tristezas, tudo retratado de forma competente e alegre. Essa empatia com o público se dava a partir de qualquer personagem que criasse. O Azambuja é o alter ego de muita gente, de muito pilantra, daquele que quer se dar bem na vida pela inocência alheia; o Justo Veríssimo personifica o político que detestamos, aquele que, não importa os meios, pretende sempre atingir um fim que lhe dê algumas – ou muitas – vantagens.

Quando reprisamos as apresentações de “Chico City” ou da “Escolinha do Professor Raimundo” (saudades do Ivon Curi e seu Gaudêncio), constatamos a genialidade desse que foi, sem dúvida, e como ele mesmo gostava de se intitular, o Chaplin brasileiro. Um desavisado que não conhecesse a obra de Chico Anysio poderia jurar que os personagens eram protagonizados por diferentes artistas e não por apenas um só.

Quando a qualidade dos programas televisivos vai, pouco a pouco, definhando, tomando rumos inusitados; quando assistimos a banalização do humor e de seus atores, a saudade começa a se fazer companheira constante. O verdadeiro humorismo ficou órfão no dia 23 de março deste ano.

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* Historiador