domingo, 6 de maio de 2012

COLUNA


Desabrigo


Uma marquise como teto, o chão transformado em cama, um degrau por travesseiro, pedaços de uma caixa de papelão rasgada a poucos instantes de deitar se transformam em uma espécie de cobertor, literalmente em retalhos.

Pessoas despidas de uma casa, cama, um colchão, cobertor; despidas de saúde, de educação, e a sociedade termina por despi-las de dignidade.

Pergunto seu nome, e diz: “Me chamavam por Amaral”, frase no passado, por onde certamente deve ter ficado, sido deixado, esquecido, perdido. O presente não se faz presente e o futuro, bem o futuro é outro papo, se houver tempo, quando houver tempo.

Sua situação não faz parte da pauta, mesmo em ano de eleição, ainda mais no país do futebol e do samba.

Entrego uma coberta, uma das últimas restantes no guarda roupa depois de entregar quase todas, agradece muito, sinceramente, timidamente, tristemente.

Amanhã será um novo dia, com a ajuda de Deus e a misericórdia da sociedade, pra você também Amaral.

Carlos Rafael Ferreira, advogado e professor.


 
*Imagem: Google.