terça-feira, 17 de junho de 2014

COLUNA


A religiosidade popular

- Hoje vamos falar um pouco das festas religiosas e populares de nossa cidade.
- E quais são elas, meu amigo?
- Bom, vamos começar com a Festa dos Santos Reis, ou como é popularmente conhecida, Folia de Reis. Aqui em Caxambu ela começa no mês de dezembro e avança até o dia 6 de janeiro. Há 42 anos vem sendo realizada pelo senhor Anézio, com a comunidade do Caxambu Velho. Ali existe a chamada Companhia de Reis do Caxambu Velho que, além da tradicional adoração do presépio, também distribui doces à criançada do bairro.
- E como surgiu essa festa, meu caro Bengo?
- Bom, a chamada Folia dos Santos Reis vem desde a Idade Média. Trata-se de um cortejo de pessoas devotas que, num ato de fé, percorrem casas de um bairro, ou de uma cidade, cantando, brincando e pedindo esmolas para repetir simbolicamente a viagem dos Reis Magos ao Oriente até encontrarem o Menino Jesus, em Belém.
- E aqui eles também fazem isso, pois eu que ando ali pelo Caxambu Velho sou testemunha da grande festa produzida pelo senhor Anézio e amigos!
- É verdade, meu caro João Pedro. Eles levam também uma bandeira, no caso a bandeira do Divino, que na realidade é a alma da folia de reis, pois ali estão também representados os santos reis. O senhor Anézio é o mestre da Folia de Reis de Caxambu, o que lhe dá uma grande responsabilidade, é quase que um líder espiritual, além de organizador das andanças e das cantorias.
- Na verdade, meus amigos, aqui em Caxambu se dá muita importância a essa festa, mas ela já foi vista com muita desconfiança em muitos lugares e há muitos anos, principalmente pela Igreja que não via com bons olhos a Festa dos Santos Reis, a Festa do Rosário dos Homens Pretos, o Império do Divino, as Festas Juninas e as Encomendações das Almas. Hoje em dia essas festas são realizadas com grande alegria nas comunidades e aqui em Caxambu não é diferente.
- Agora, falaremos da Festa da Padroeira.
- Nossa Senhora dos Remédios, não é, Bengo?
- Isso mesmo, Saré. Na realidade aqui em Caxambu comemoramos a festa da padroeira no dia 15 de agosto, mas, na realidade, o dia consagrado a Nossa Senhora dos Remédios é 8 de setembro. Quando foi erguida a primeira capelinha no povoado em 1872, ela foi consagrada a Nossa Senhora dos Remédios pelas curas que as águas faziam, ainda que muitos digam que o termo “remédios” não significa medicamentos, mas sim a solução para situações difíceis. O culto é muito antigo e chegou para nós através de Portugal, onde foi introduzido no século XIII.
- A nossa matriz foi erguida no local conhecido como Largo do Cruzeiro e teve como principal incentivador o comerciante José Maria da Costa Guedes. Em 16 de novembro de 1875 o povoado das Águas Virtuosas de Baependi foi elevado à condição de freguesia e à capela foi dada a primazia de paróquia. No ano de 1892 foi lançada a pedra fundamental da igreja matriz, mais precisamente em 9 de outubro, por obra do cônego José Silvério Nogueira da Luz, conforme já falamos anteriormente. Em 1º de janeiro de 1906 foi criada a paróquia de Nossa Senhora dos Remédios e reconhecida canonicamente em 1907, pelo bispo de Pouso Alegre, D. João Batista Corrêa Nery.
- Uma outra manifestação religiosa importantíssima em nossa cidade é o Corpus Christi.
- E quando acontece, meu amigo?

- Essa é uma data consagrada pela Igreja na segunda quinta-feira depois do Domingo da Santíssima Trindade.
- Xi! Agora complicou. O que é isso, meu caro Bengo?
- Vou tentar explicar: é uma cerimônia que consagra o Corpo e o Sangue de Cristo, e acontece 60 dias depois da Páscoa. Teve origem na Idade Média, onde a Igreja destacava a humanidade de Cristo e o mistério da sua encarnação. A hóstia representa o Seu corpo imolado.
- E as ruas ficam enfeitadas nesse dia, não, meu caro Bengo?
- É verdade, aqui em Caxambu os devotos fazem um trabalho lindíssimo na avenida Camilo Soares e na rua Wenceslau Braz, por onde a procissão passa. São verdadeiros tapetes floridos feitos de serragem, com uma decoração religiosa de bom gosto. A procissão solene vem sempre com o Santíssimo no ostensório, com a participação de coroinhas, anjinhos e todas as irmandades. Segue-se uma banda de música, tocando hinos religiosos até a matriz, onde é celebrada missa solene em louvor ao Santíssimo Sacramento. É uma solenidade tão significativa e de grande alcance na sociedade que em Portugal, de onde veio essa tradição, os vereadores municipais participavam obrigatoriamente das procissões e carregavam o pálio.
- Outras solenidades religiosas e populares em Caxambu são a festa de Santa Rita, comemorada com grande alegria no bairro que leva o nome daquela santa, isto em 22 de maio; a festa de Santo Antônio, comemorada no dia 13 de junho, também no bairro que leva o seu nome, aliás, essa é uma informação interessante: o bairro nasceu como Vila dos Pobres de Santo Antônio de Caxambu, em 13 de junho de 1943, na beira da estrada de rodagem que ligava Caxambu a Areias.
- É por ali que eu corro, meu caro Bengo!
- Eu sei disso, João Pedro, e você foi testemunha da criação daquela vila que depois se transformou em um bairro.
- Todas essas manifestações de religiosidade, quer sejam oficiais ou não, mostram a vida e a experiência religiosa de nosso povo, mantendo tradições orais católicas vindas da Idade Média, através de Portugal. O que a gente vê nessas manifestações é que a vida e a religião não se separam, mas devemos atentar também para outras festas religiosas que vieram para o Brasil através dos negros africanos e outras que foram passadas por nossos indígenas, mas que, infelizmente, ainda não damos a importância que elas merecem na formação da nossa cultura e da nossa religiosidade.