segunda-feira, 27 de julho de 2009

NEWTON CARDOSO QUER VOLTAR À CENA POLÍTICA

Pitangui – Ao lado da piscina da cinematográfica Fazenda Rio Rancho, na cidade a 125 quilômetros de Belo Horizonte, o ex-governador Newton Cardoso deliciava-se, na sexta-feira, com o assédio e os abraços dos cerca de 300 correligionários, a maioria do interior, convidados para o lançamento da candidatura do deputado estadual Adalclever Lopes à presidência do PMDB estadual e para o anúncio de sua própria candidatura à Câmara dos Deputados depois de duas derrotas, para o governo do estado e para o Senado. “Sou igual a um pajé velho. Quando bato o bumbo, o pessoal acode”, comemorou o ex-governador.Tudo muito diferente de quando ele abria a porteira (e o heliporto) da fazenda e 'acudiam’ expoentes da política nacional. Um exemplo é o memorável encontro de 20 anos atrás, em março de 1989, quando o então governador de Minas recebeu estrelas do PMDB como os governadores de São Paulo, Orestes Quércia, do Rio, Moreira Franco, da Bahia, Waldir Pires, e do Pernambuco, Miguel Arraes. Na pauta, a escolha do candidato do partido à primeira eleição direta para a Presidência da República depois da ditadura militar."O Newton queria o Waldir, eu queria o Arraes e o Quércia era mais o Quércia”, disse, na época, o governador Moreira Franco. O escolhido acabou sendo Ulysses Guimarães, que teve desempenho modesto na disputa que levou Fernando Collor de Mello à presidência. No encontro de ontem, as pretensões eram muito menores e as presenças, muito menos importantes. Dos nove deputados federais do partido, apenas Saraiva Felipe compareceu; dos oito estaduais, ‘acudiram’ Sávio Souza Cruz, Gilberto Abramo e Wanderley Miranda, além de Adalclever. Não por acaso, o encontro da Rio Rancho aconteceu logo depois do falecimento do deputado federal Fernando Diniz, que presidia o partido em Minas, mesmo com a assessoria do governador garantindo que a festa foi marcada antes da morte prematura do dirigente.
Retomada
Para o ex-governador, a reabertura da fazenda significa a tentativa de volta à cena política, depois das duas sucessivas derrotas, na disputa para o governo de Minas, em 2002, e para o Senado, em 2006. Nesta última eleição, em grupos de pesquisa qualitativa, eleitores costumavam avaliar que “Newton Cardoso tem muito voto... lá em Contagem”. Mas, nos grupos, não aparecia ninguém declarando voto ao ex-governador.O ex-prefeito de Timóteo, no Vale do Aço, Leonardo Rodrigues da Cunha, o Lelé, tenta justificar o declínio nas urnas. “O tempo vai passando. Nós já estamos envelhecidos. É preciso renovar ouvindo os mais antigos, porque eles sabem o caminho das pedras.” O prefeito de Vespasiano, Carlos Murta, concorda: “Até acredito que Newton perdeu força eleitoral, mas dentro do partido é respeitado e muitos seguem a orientação dele”. Lelé argumenta, também, que se o encontro da Rio Rancho fosse marcado para o fim de semana, em vez de sexta-feira, “o número de presentes seria muito maior".Entre os que compareceram, havia correligionários de várias regiões do estado, muitos saudosos dos tempos em que Newton era governador. “Ele sempre tratou os diretórios com muito carinho. A força interna dele no partido continua”, garante o prefeito de Caiana, na Zona da Mata, Sebastião Sales, que era vereador quando Newton ocupava o Palácio da Liberdade.O presidente do diretório municipal de Ijaci, no Sul de Minas, Júlio Borges, faz coro: “O Newton ajudou muito o município. Se ele mandar, nós obedecemos”. Do Norte de Minas, vem outra declaração de fidelidade, desta vez do vereador de Coração de Jesus José Pereira Neto, o Jucão: “Newton é meu chefe maior”.
Velha estratégia em busca de votos
Conquistar os votos dos delegados do partido sempre foi estratégia do baiano de Brumado que surpreendeu Minas e o Brasil quando se elegeu governador do estado, em 1986. Era o coroamento da carreira de um político que fora duas vezes prefeito de Contagem. Na prefeitura, uma de suas estratégias era “bater no bumbo” para atrair e conquistar os prefeitos e dirigentes partidários de cidades menores.Foi assim que conseguiu a legenda para disputar e conquistar o Palácio da Liberdade. É assim que ele inicia sua tentativa de voltar. “São os mesmos delegados de 20 anos atrás. Eu tenho uma liderança razoável junto às bases do partido”, reconhece aquele que se considera “o mais velho peemedebista deste estado”, referindo-se ao fato de ser um dos fundadores do partido. Por isso, ele mesmo se apresenta como um “jurássico” em busca de quadros novos que permitam uma “renovação natural” ao partido. Já para um outro peemedebista, “Newton é um ícone, mas o partido precisa ser rejuvenescido”.
Articulação
“Nós envelhecemos, mas as ideias são novas”, discursa o ex-governador. Segundo ele, em contato com outros líderes “jurássicos”, como Zaire Rezende e Tarcísio Delgado, que não viajaram até a Rio Rancho, ficou acertado que Adalclever Lopes seria o candidato. “Zaire é um ancião do PMDB, como eu. É um conselho de anciãos para eleger Adalclever”, diverte-se o ex-governador, que tenta minimizar a importância da candidatura à Câmara dos Deputados para sua própria trajetória política. “Talvez eu seja deputado, para ajudar o partido. Minha candidatura engrossa a majoritária”, diz ele, referindo-se à possível candidatura do ministro das Comunicações, Hélio Costa, ao governo de Minas.Circulando entre os convidados, disponível para fotos individuais e em grupos, bem-humorado e fumando seus charutos cubanos marca Cohiba, Newton atuava para manter elevado o astral do encontro. “Eu estou fazendo festa”, brinca. E que festa. Desde a hora marcada para o início da “reunião”, 10h, eram servidos salgadinhos variados, enquanto os comensais aguardavam o churrasco e a feijoada que, segundo o ex-governador, ele mesmo tinha preparado.No discurso, que teve direito a estrondosa queima de fogos no início, arrancou aplausos ao anunciar: “Acordei as 5h da manhã e fui para a cozinha preparar a feijoada para vocês”. Para acompanhar o tira-gosto e a feijoada, havia farta oferta de refrigerantes, sucos, cerveja, vinho argentino Alamos e a pinga Rio Rancho, destilada lá mesmo na fazenda.

Fonte: UAI - reportagem: Maurício Lara - Estado de Minas