Estive em Caxambu este mês (julho/09) e, na ocasião, o Pepe (do Palace Hotel) presenteou-me com um DVD, originário de um filme sobre o verão de Caxambu do ano de 1952. Já se passaram 57 anos; naquela época, a estância vivia 3 momentos de significativa afluência de aquáticos: o primeiro deles, durante as férias escolares de janeiro e fevereiro; o segundo, nas férias juninas; e o terceiro, na estação de setembro, quando era comemorado o aniversário da cidade, no dia16.
O nosso subconsciente registra para o todo e sempre as impressões terra-a-terra que vivenciamos durante a vida; e, num piscar de olhos, como o riscar um fósforo na escuridão da memória, as imagens surgem em “frames”, abrindo um telão diante de nossos olhos estupefatos. A vida interior tem sua mística e essa magia cibernética é superior a todas as modernidades das internetes que venham ser inventadas.
As cenas da fita, que tem poucos minutos de duração, serviram de código decifrador de uma época do passado histórico da cidade que, embora tenha sido gravada ficou perdida no tempo Aquelas imagens, ao serem baixadas da memória, se transformaram diante de meus olhos em quilômetros de lembranças e histórias que estavam guardadas no meu “pen drive cardiológico”. Vendo a película, identifiquei pessoas que frequentavam Caxambu durante os verões. É interessante dizer que grande parte dos aquáticos era cíclica, retornando todos os anos para os mesmos hoteis. Formava-se, dessa maneira, uma amizade que era renovada anualmente com as famílias que vinham de todos os Estados para a estação de águas. Havia trens especiais, chamados “Trem dos Aquáticos”, que partiam da Central do Brasil e iam, sem parar, do Rio até a cidade de Cruzeiro, no Estado de São Paulo. Fazia-se, então, a baldeação para a Rede Mineira Viação (RMV), jocosamente rotulada como “Ruim Mas Vai”. A viagem seguia, via Passa Quatro, parando nas estações até Baependi, incluindo Caxambu. O conhecimento entre os veranistas começava no transcorrer dessa viagem.
A permanência na estância era de 21 dias, tempo estimado para que as águas minerais agissem no organismo, a saber, 7 dias limpando-o, mais 7 tratando-o, e outros 7 fortificando-o até o ano seguinte, quando se retornava para nova estação de águas. Digo que o tratamento funcionava muito bem porque vi o exemplo de minha mãe que sempre fez sua temporada aquática. Ela chegou aos 99 anos de idade tocando piano para os bisnetos, lúcida, sendo que até os 94 nunca deixou de ir a Caxambu tomar as águas, duchas e massagens, conforme prescrições do meu pai. Só parou de frequentar a estância quando seu cardiologista recomendou que evitasse a altitude e o frio da cidade, imposições médicas que ela morreu protestando e refutando.
A respeito do DVD, penso que o operador da câmera devia ser hóspede do hotel Caxambu porque reconheci os gêmeos que aparecem várias vezes na película; e se não estou cometendo algum engano, eles eram hóspedes daquele hotel da Empresa de Águas (ela era dona do Caxambu e do Anexo Caxambu, prédio em cima do cinema onde está a prefeitura). Conheci-os quando garotos e no filme já são homens, ratificando o que disse no início da crônica de que as famílias eram cíclicas, retornando todos os anos para os mesmos hotéis. Esses gêmeos, aliás, eram uns gozadores; em certa ocasião, prenderam um cartaz na entrada do Parque, fixando-o no caule do cedro centenário que havia junto à portaria (onde era costume a colocação de anúncios, naquela época), convidando para um espetáculo musical de dupla estrangeira, com recital à noite, no hotel Caxambu, e colaram seus retratos, onde apareciam como dois americanos, John e Louis, de bonés e camisas estampadas. Muita gente foi até lá e pagou mico pois era brincadeira dos dois que se desculpavam e agradeciam a todos com muita risada e humor.
Abrindo um espaço nesta crônica, aproveito para comentar que a derrubada do cedro da porta do Parque, assim como o outro cedro e uma casuarina que existiam em frente ao balneário, todos eles centenários, frondosos e fazendo parte da história daquela paisagem, foi um crime ambiental, ecológico e histórico que nos dias atuais seria veementemente punido pelas ONGs da vida e pelos fiscais do IBAMA. Mas isso é assunto para outra ocasião.
O Isaac Elbas aparece como o Rei Momo no corso das charretes. Ele era um dos hóspedes tradicionais do Palace Hotel e pessoa importante no meio financeiro do Rio.Sempre muito alegre, fazia questão de ser o rei do carnaval e para tanto trazia na bagagem sua própria fantasia de momo. Quando desembarcava no hotel ia cobrando do sr.Paulo Vianna (dono de Palace) o dia da festa de sua coroação. Sua mulher, d.Dodora, requisitava os serviços de uma ajudante, à guisa de camareira que a ajudasse vestir, pentear, calçar, etc. Quem costumava ser chamada para tal tarefa era a Eunice, que trabalhou durante algum tempo na portaria do hotel. Outro fato peculiar de d.Dodora eram seus cabelos azulados; fazendo-lhe dupla, havia a mãe do Nelsinho, também assídua do hotel, que ostentava um coque mais volumoso com fios de cabelos misturados nos tons brancos e azuis. O apartamento do casal, o n˚ 56, especialmente aparelhado para os objetos pessoais de d.Dodora, passou mais tarde a ser usado por minha mãe quando nós, todos adultos, deixamos de acompanhá-la em suas temporadas em Caxambu.
A película mostra locais tradicionais daquela época como a piscina do Parque. É bom dizer que ela foi durante muito tempo a única da região. Vinham turistas de São Lourenço, Baependi, Lambari, Cambuquira e arredores para seus banhos em águas minerais correntes, sem cloro. Vejam bem que toda a semana era esvaziada e lavada com sabão. Eram 3 dias para esvaziar, limpar e encher e outros 4 usados para os banhos. Muitas vezes acontecia chover quando estava cheia e fazer sol quando vazia. Como é vista na filmagem, ficava lotada com banhistas e não banhistas que aproveitavam o sol nas manhãs e tardes do verão.
Naquela época, davam shows com saltos acrobáticos o Zebu com seus mortais, carpados e canivetes, e o Ipê com seus anjos. Na portaria do Parque comprava-se o tíquete para o banho; era comum os bilhetes se esgotarem por volta das 10 horas, pois a lotação da piscina era limitada e bem controlada. Na administração das toalhas, cabines e fiscalização da esguichada nos chuveiros antes de entrar na piscina, estava a Irene, que tinha um olho eletrônico e não deixava ninguém pular na água sem ter passado pelo chuveiro. Para se frequentar a piscina era preciso um atestado médico; para tal, havia consultórios dentro do balneário com doutores que receitavam para o uso das águas, duchas, massagens e piscina.
No episódio da patinação, reconheci o senhor que patinava mal; era um militar que usava uns óculos com lentes levemente esverdeadas. Penso que era, também, hóspede usual do hotel Caxambu. Quem tomava conta dos patins era a Sinhá Pereira que mantinha o olhar tanto no relógio, controlando a hora dos patinadores, como também no tricô, através dos óculos na ponta do nariz: era uma grande figura. Todos os tipos de valsas eram tocadas no Coreto da Música (ainda de pé até hoje) para embalar quem patinava e a platéia. Merece lembrar que Caxambu tinha excelentes patinadores, mas dentre eles o Renato e o Sylvio se destacavam. O espetáculo que esses irmãos proporcionavam não ficava devendo a nenhum outro exibido por profissionais da área. O ringue marcava presença naqueles tempos.
Nos instantâneos da cidade, em frente à Praça 16 de Setembro, ao lado do cinema, vê-se o anúncio da REAL/NACIONAL, na porta do seu escritório. Ela era a Companhia Aérea que fazia a linha Rio/Caxambu, partindo do aeroporto Santos Dumont. A viagem durava 50 minutos naqueles aviões pequenos DC3, sem pressurização, como eram os aparelhos usados na época. Quando o avião aterrissava, a primeira pessoa que aparecia para a recepção dos passageiros era o Antonio Maurício Ferreira, autor do livro “Às margens do Bengo”; ele ocupava um cargo de chefia na Companhia. A pista de pouso ficava sob a vigilância do sr. Levy e família que tinham uma plantação de arroz perto de uma lagoa que havia nos arredores.
Um fato não condiz com o carnaval daquele ano; as músicas carnavalescas do filme são de carnavais de anos muito anteriores a ele. Os sambas da época eram Barracão de Zinco, Lata d´Água na Cabeça e outros mais (que me desculpem os entendidos em carnaval, caso meu comentário não esteja correto; não sou muito versada em carnavais, mormente os antigos).
Durante os 3 dias momescos as ruas ficavam animadas com vários blocos do pessoal da terra, todos acompanhados por conjuntos onde não faltavam os musicistas irmãos Rosental. Os garotos do Patronato de Menores (onde funciona nos dias de hoje a Universidade), aproveitavam a ocasião e pulavam em grupos na rua até o cair da noite. Havia o bloco do Prazer das Morenas que, no último dia, desfilava com sua Rainha do Carnaval. Tivemos em casa, durante alguns anos, uma serviçal chamada Benedita Laurinda (não sei se ainda estará pela cidade), que era de Caxambu Velho. Foi, e ainda é, pessoa muito querida em nossa casa. Deixou-nos quando casou e teve que se dedicar aos filhos. Ela tinha uma irmã, a Geny (ou seria Elsa, não estou muito segura), que num dos carnavais foi rainha do Prazer das Morenas e passou em frente ao Palace num carro alegórico, rodeado por um séquito de princesas. Quando nos viu, meu irmão e eu, fez questão de jogar beijos em nossa direção. Para nós, que éramos crianças, foi a glória! Sentimo-nos importantes com a deferência.
Havia uns “coroas”, frequentadores fieis do hotel Lopes, que merecem ser lembrados quando se fala dos carnavais de então. Era um grupo formado por cariocas que todos os anos trazia suas fantasias e saia no “Bloco do hotel Lopes” com direito a estandarte, rainha, súditos, e tudo mais. O destaque era a rainha Marina e seu valete Quinzinho (na verdade era o casal Marina e Joaquim, pessoas sérias, mas que adoravam uma batucada). D.Marina pesava uns 100 quilos de alegria e seus dentes incisivos superiores eram bem separados, o que a tornava bastante caricata e mais alegre ainda. Dias antes do carnaval, o casal promovia nos salões do Lopesl ensaios do bloco, como se fosse uma escola de samba dos dias atuais.
Os hotéis Avenida, Palace e Glória davam bailes nas 4 noites e ficavam com seus salões lotados. As festas do Palace eram no salão de refeições, ocasião em que tínhamos de jantar mais cedo e liberar os empregados para a arrumação da festa. Esses dias de carnaval eram os únicos em que o hotel permitia roupa esporte no jantar, em lugar do traje de passeio completo exigido normalmente nos outros dias.
É interessante frisar que, apesar de todo o movimento carnavalesco nas ruas, a cidade permanecia silenciosa durante as noites, não extravasando o barulho dos salões dos clubes e hotéis para fora de seus ambientes. Aquele que procurava encontrar noites calmas e agradáveis nesse período podia dormir sossegado, contrário da cidade de hoje, barulhenta de dia e de noite.
Voltando ao filme, o bucolismo que encantava os aquáticos é mostrado com as charretes abertas, de 2 lugares, diferentes das de hoje que parecem as velhas jardineiras de antigamente. Interessante, também, ver os grupos de cavaleiros que cruzavam as ruas em demanda dos passeios da Volta Grande, Chácara dos Pêssegos, Chácara das Uvas, Baependi, Represa Velha, Volta do Juca Leite, Aeroporto, Toca dos Urubus, Volta do Vianna, etc.
O hotel Glória Velho aparece com as janelas dos apartamentos abertas, no tempo em que era totalmente ocupado pela hotelaria, e o Glória Novo surge sem ter construído, ainda, suas quadras e a piscina.
Os hotéis Bragança e Lopes mostram que o tempo não os importunou, continuando firmes até hoje; já o hotel Avenida, que exibe seu belo casario, tem outra feição, seguindo as mudanças do tempo. Mas todos embelezam a cidade.
Quem vê as ruas cheias de carros não faz idéia das estradas de então e da audácia que tinham seus motoristas afrontando-as. A Rio-Caxambu era de terra e formava atoleiros e barreiras com as chuvas de verão. A ligação entre Caxambu e Lambari/Cambuquira ficava intransitável, só permitindo o acesso por trem. O mesmo acontecia com a estrada para Baependi; para lá do cemitério (a estrada antiga passava por ele) havia um riacho que inundava um barreiro impedindo a passagem de qualquer veículo, nem mesmo caminhão usando corrente conseguia passar. Apenas a Maria Fumaça no seu “Ruim Mas Vai”... ia... e passava.
Esse pitoresco das estâncias hidrominerais atraía aquáticos de todo o território nacional. Em Caxambu eles encontravam, a mais, a simplicidade e gentileza do povo, o clima ameno e, principalmente, as águas minerais terapêuticas, fatores que faziam, e fazem até hoje, toda a diferença e justificam as centenas de quilômetros que são percorridos para que se possa usufruir desse rincão mineiro parasidíaco.
Rio, 24.07.2009
O nosso subconsciente registra para o todo e sempre as impressões terra-a-terra que vivenciamos durante a vida; e, num piscar de olhos, como o riscar um fósforo na escuridão da memória, as imagens surgem em “frames”, abrindo um telão diante de nossos olhos estupefatos. A vida interior tem sua mística e essa magia cibernética é superior a todas as modernidades das internetes que venham ser inventadas.
As cenas da fita, que tem poucos minutos de duração, serviram de código decifrador de uma época do passado histórico da cidade que, embora tenha sido gravada ficou perdida no tempo Aquelas imagens, ao serem baixadas da memória, se transformaram diante de meus olhos em quilômetros de lembranças e histórias que estavam guardadas no meu “pen drive cardiológico”. Vendo a película, identifiquei pessoas que frequentavam Caxambu durante os verões. É interessante dizer que grande parte dos aquáticos era cíclica, retornando todos os anos para os mesmos hoteis. Formava-se, dessa maneira, uma amizade que era renovada anualmente com as famílias que vinham de todos os Estados para a estação de águas. Havia trens especiais, chamados “Trem dos Aquáticos”, que partiam da Central do Brasil e iam, sem parar, do Rio até a cidade de Cruzeiro, no Estado de São Paulo. Fazia-se, então, a baldeação para a Rede Mineira Viação (RMV), jocosamente rotulada como “Ruim Mas Vai”. A viagem seguia, via Passa Quatro, parando nas estações até Baependi, incluindo Caxambu. O conhecimento entre os veranistas começava no transcorrer dessa viagem.
A permanência na estância era de 21 dias, tempo estimado para que as águas minerais agissem no organismo, a saber, 7 dias limpando-o, mais 7 tratando-o, e outros 7 fortificando-o até o ano seguinte, quando se retornava para nova estação de águas. Digo que o tratamento funcionava muito bem porque vi o exemplo de minha mãe que sempre fez sua temporada aquática. Ela chegou aos 99 anos de idade tocando piano para os bisnetos, lúcida, sendo que até os 94 nunca deixou de ir a Caxambu tomar as águas, duchas e massagens, conforme prescrições do meu pai. Só parou de frequentar a estância quando seu cardiologista recomendou que evitasse a altitude e o frio da cidade, imposições médicas que ela morreu protestando e refutando.
A respeito do DVD, penso que o operador da câmera devia ser hóspede do hotel Caxambu porque reconheci os gêmeos que aparecem várias vezes na película; e se não estou cometendo algum engano, eles eram hóspedes daquele hotel da Empresa de Águas (ela era dona do Caxambu e do Anexo Caxambu, prédio em cima do cinema onde está a prefeitura). Conheci-os quando garotos e no filme já são homens, ratificando o que disse no início da crônica de que as famílias eram cíclicas, retornando todos os anos para os mesmos hotéis. Esses gêmeos, aliás, eram uns gozadores; em certa ocasião, prenderam um cartaz na entrada do Parque, fixando-o no caule do cedro centenário que havia junto à portaria (onde era costume a colocação de anúncios, naquela época), convidando para um espetáculo musical de dupla estrangeira, com recital à noite, no hotel Caxambu, e colaram seus retratos, onde apareciam como dois americanos, John e Louis, de bonés e camisas estampadas. Muita gente foi até lá e pagou mico pois era brincadeira dos dois que se desculpavam e agradeciam a todos com muita risada e humor.
Abrindo um espaço nesta crônica, aproveito para comentar que a derrubada do cedro da porta do Parque, assim como o outro cedro e uma casuarina que existiam em frente ao balneário, todos eles centenários, frondosos e fazendo parte da história daquela paisagem, foi um crime ambiental, ecológico e histórico que nos dias atuais seria veementemente punido pelas ONGs da vida e pelos fiscais do IBAMA. Mas isso é assunto para outra ocasião.
O Isaac Elbas aparece como o Rei Momo no corso das charretes. Ele era um dos hóspedes tradicionais do Palace Hotel e pessoa importante no meio financeiro do Rio.Sempre muito alegre, fazia questão de ser o rei do carnaval e para tanto trazia na bagagem sua própria fantasia de momo. Quando desembarcava no hotel ia cobrando do sr.Paulo Vianna (dono de Palace) o dia da festa de sua coroação. Sua mulher, d.Dodora, requisitava os serviços de uma ajudante, à guisa de camareira que a ajudasse vestir, pentear, calçar, etc. Quem costumava ser chamada para tal tarefa era a Eunice, que trabalhou durante algum tempo na portaria do hotel. Outro fato peculiar de d.Dodora eram seus cabelos azulados; fazendo-lhe dupla, havia a mãe do Nelsinho, também assídua do hotel, que ostentava um coque mais volumoso com fios de cabelos misturados nos tons brancos e azuis. O apartamento do casal, o n˚ 56, especialmente aparelhado para os objetos pessoais de d.Dodora, passou mais tarde a ser usado por minha mãe quando nós, todos adultos, deixamos de acompanhá-la em suas temporadas em Caxambu.
A película mostra locais tradicionais daquela época como a piscina do Parque. É bom dizer que ela foi durante muito tempo a única da região. Vinham turistas de São Lourenço, Baependi, Lambari, Cambuquira e arredores para seus banhos em águas minerais correntes, sem cloro. Vejam bem que toda a semana era esvaziada e lavada com sabão. Eram 3 dias para esvaziar, limpar e encher e outros 4 usados para os banhos. Muitas vezes acontecia chover quando estava cheia e fazer sol quando vazia. Como é vista na filmagem, ficava lotada com banhistas e não banhistas que aproveitavam o sol nas manhãs e tardes do verão.
Naquela época, davam shows com saltos acrobáticos o Zebu com seus mortais, carpados e canivetes, e o Ipê com seus anjos. Na portaria do Parque comprava-se o tíquete para o banho; era comum os bilhetes se esgotarem por volta das 10 horas, pois a lotação da piscina era limitada e bem controlada. Na administração das toalhas, cabines e fiscalização da esguichada nos chuveiros antes de entrar na piscina, estava a Irene, que tinha um olho eletrônico e não deixava ninguém pular na água sem ter passado pelo chuveiro. Para se frequentar a piscina era preciso um atestado médico; para tal, havia consultórios dentro do balneário com doutores que receitavam para o uso das águas, duchas, massagens e piscina.
No episódio da patinação, reconheci o senhor que patinava mal; era um militar que usava uns óculos com lentes levemente esverdeadas. Penso que era, também, hóspede usual do hotel Caxambu. Quem tomava conta dos patins era a Sinhá Pereira que mantinha o olhar tanto no relógio, controlando a hora dos patinadores, como também no tricô, através dos óculos na ponta do nariz: era uma grande figura. Todos os tipos de valsas eram tocadas no Coreto da Música (ainda de pé até hoje) para embalar quem patinava e a platéia. Merece lembrar que Caxambu tinha excelentes patinadores, mas dentre eles o Renato e o Sylvio se destacavam. O espetáculo que esses irmãos proporcionavam não ficava devendo a nenhum outro exibido por profissionais da área. O ringue marcava presença naqueles tempos.
Nos instantâneos da cidade, em frente à Praça 16 de Setembro, ao lado do cinema, vê-se o anúncio da REAL/NACIONAL, na porta do seu escritório. Ela era a Companhia Aérea que fazia a linha Rio/Caxambu, partindo do aeroporto Santos Dumont. A viagem durava 50 minutos naqueles aviões pequenos DC3, sem pressurização, como eram os aparelhos usados na época. Quando o avião aterrissava, a primeira pessoa que aparecia para a recepção dos passageiros era o Antonio Maurício Ferreira, autor do livro “Às margens do Bengo”; ele ocupava um cargo de chefia na Companhia. A pista de pouso ficava sob a vigilância do sr. Levy e família que tinham uma plantação de arroz perto de uma lagoa que havia nos arredores.
Um fato não condiz com o carnaval daquele ano; as músicas carnavalescas do filme são de carnavais de anos muito anteriores a ele. Os sambas da época eram Barracão de Zinco, Lata d´Água na Cabeça e outros mais (que me desculpem os entendidos em carnaval, caso meu comentário não esteja correto; não sou muito versada em carnavais, mormente os antigos).
Durante os 3 dias momescos as ruas ficavam animadas com vários blocos do pessoal da terra, todos acompanhados por conjuntos onde não faltavam os musicistas irmãos Rosental. Os garotos do Patronato de Menores (onde funciona nos dias de hoje a Universidade), aproveitavam a ocasião e pulavam em grupos na rua até o cair da noite. Havia o bloco do Prazer das Morenas que, no último dia, desfilava com sua Rainha do Carnaval. Tivemos em casa, durante alguns anos, uma serviçal chamada Benedita Laurinda (não sei se ainda estará pela cidade), que era de Caxambu Velho. Foi, e ainda é, pessoa muito querida em nossa casa. Deixou-nos quando casou e teve que se dedicar aos filhos. Ela tinha uma irmã, a Geny (ou seria Elsa, não estou muito segura), que num dos carnavais foi rainha do Prazer das Morenas e passou em frente ao Palace num carro alegórico, rodeado por um séquito de princesas. Quando nos viu, meu irmão e eu, fez questão de jogar beijos em nossa direção. Para nós, que éramos crianças, foi a glória! Sentimo-nos importantes com a deferência.
Havia uns “coroas”, frequentadores fieis do hotel Lopes, que merecem ser lembrados quando se fala dos carnavais de então. Era um grupo formado por cariocas que todos os anos trazia suas fantasias e saia no “Bloco do hotel Lopes” com direito a estandarte, rainha, súditos, e tudo mais. O destaque era a rainha Marina e seu valete Quinzinho (na verdade era o casal Marina e Joaquim, pessoas sérias, mas que adoravam uma batucada). D.Marina pesava uns 100 quilos de alegria e seus dentes incisivos superiores eram bem separados, o que a tornava bastante caricata e mais alegre ainda. Dias antes do carnaval, o casal promovia nos salões do Lopesl ensaios do bloco, como se fosse uma escola de samba dos dias atuais.
Os hotéis Avenida, Palace e Glória davam bailes nas 4 noites e ficavam com seus salões lotados. As festas do Palace eram no salão de refeições, ocasião em que tínhamos de jantar mais cedo e liberar os empregados para a arrumação da festa. Esses dias de carnaval eram os únicos em que o hotel permitia roupa esporte no jantar, em lugar do traje de passeio completo exigido normalmente nos outros dias.
É interessante frisar que, apesar de todo o movimento carnavalesco nas ruas, a cidade permanecia silenciosa durante as noites, não extravasando o barulho dos salões dos clubes e hotéis para fora de seus ambientes. Aquele que procurava encontrar noites calmas e agradáveis nesse período podia dormir sossegado, contrário da cidade de hoje, barulhenta de dia e de noite.
Voltando ao filme, o bucolismo que encantava os aquáticos é mostrado com as charretes abertas, de 2 lugares, diferentes das de hoje que parecem as velhas jardineiras de antigamente. Interessante, também, ver os grupos de cavaleiros que cruzavam as ruas em demanda dos passeios da Volta Grande, Chácara dos Pêssegos, Chácara das Uvas, Baependi, Represa Velha, Volta do Juca Leite, Aeroporto, Toca dos Urubus, Volta do Vianna, etc.
O hotel Glória Velho aparece com as janelas dos apartamentos abertas, no tempo em que era totalmente ocupado pela hotelaria, e o Glória Novo surge sem ter construído, ainda, suas quadras e a piscina.
Os hotéis Bragança e Lopes mostram que o tempo não os importunou, continuando firmes até hoje; já o hotel Avenida, que exibe seu belo casario, tem outra feição, seguindo as mudanças do tempo. Mas todos embelezam a cidade.
Quem vê as ruas cheias de carros não faz idéia das estradas de então e da audácia que tinham seus motoristas afrontando-as. A Rio-Caxambu era de terra e formava atoleiros e barreiras com as chuvas de verão. A ligação entre Caxambu e Lambari/Cambuquira ficava intransitável, só permitindo o acesso por trem. O mesmo acontecia com a estrada para Baependi; para lá do cemitério (a estrada antiga passava por ele) havia um riacho que inundava um barreiro impedindo a passagem de qualquer veículo, nem mesmo caminhão usando corrente conseguia passar. Apenas a Maria Fumaça no seu “Ruim Mas Vai”... ia... e passava.
Esse pitoresco das estâncias hidrominerais atraía aquáticos de todo o território nacional. Em Caxambu eles encontravam, a mais, a simplicidade e gentileza do povo, o clima ameno e, principalmente, as águas minerais terapêuticas, fatores que faziam, e fazem até hoje, toda a diferença e justificam as centenas de quilômetros que são percorridos para que se possa usufruir desse rincão mineiro parasidíaco.
Rio, 24.07.2009