“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.”
(Carlos Drummond de Andrade)
Não, não me adiantei ao fim do ano, não errei a data ou escrevi antecipadamente sobre o ano novo, 2011 (!), muito embora este já esteja batendo à porta.Acontece que estas palavras de Carlos Drummod nos levam – com imensa razão e genialidade – a pensar acerca da vontade de acreditar, de esperança, do ano, das fatias de tempo, dos meses, sendo muito adequadas no dia de hoje, 3 de outubro – dia de eleição. Se precisamos – e é verdade que precisamos – fatiar 1 ano em meses para que a vontade de acreditar, o milagre da esperança se renove, imagine 4 anos. Pois é, seu voto de 5, 10 minutos hoje, valerá por 4 anos! E o que é mais sério ainda, sua esperança, sua vontade de acreditar só terão ouvidas novamente em 4 anos! Portanto, vote conscientemente, vote de verdade – esteja presente de direito e de fato, não apenas para levar seu título de eleitor para passear (e olha que ele nem mais é necessário, segundo decisão do Supremo de 2, 3 dias atrás). Tem gente dormindo na fila desde sexta feira à noite para votar, como publicam alguns sites de notícia, todavia, não creio que seja este seu caso, não vejo necessidade. Cuidado apenas para não dormir no ponto, aí sim será complicado, pois como disse, outro trem, outro ônibus, outro caminho, outra estrada, outros candidatos só daqui... hoje é comum vermos as pessoas trocarem de computadores, celulares, em poucos anos, meses até, trocar o corte do cabelo, a marca do desodorante, trocar de emprego, de cidade, mas para escolher outro candidato... só em 4 anos.
Para João Guimarães Rosa “o correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Sem dúvida, o correr da vida embrulha tudo, mas qual o tempo que estamos dispostos a esperar, ou qual o preço que estamos dispostos a pagar por uma vida... embrulhada? O voto não é obrigatório (você pode anular, votar em branco, por exemplos), o comparecimento é. Se por um lado comparecendo você atende ao sistema, votando você participa do sistema democrático, pense nisso. Tenha e vote com fé.
Carlos Rafael Ferreira, advogado.
