sexta-feira, 12 de novembro de 2010

COLUNA

Mudança sf. 1. Ato ou efeito de mudar(-se);


2. Os móveis e os pertences, em geral, dos que se mudam.

Móveis montados. Tapetes lavados. Pratos, copos e talheres dentro dos armários. É, caros leitores, mudei. Num domingo de muito sol e calor. E já se foi uma semana na casa nova. Como é bom sentir-se em casa. Na nossa casa. Agora, meu cantinho já está pronto. Livros, anotações, roupas. E música. Sempre. Aliás, os vizinhos deveriam ser separados por gosto musical. O meu, por exemplo, se daria melhor em outra vizinhança. Onde pagode e Celine Dion fossem mais apreciados. Sinceramente, Lá vem o negão, cheio de paixão, além de antigo, não é a melhor trilha para domingos à tarde. Se bem que prefiro esse verso a “Gooool...Elias, para o Corinthians”...mas essa é parte do fim de semana que ficou pra trás.

Confesso que a banda de hoje era para estar na coluna na próxima semana, mas, não me contive e tive de antecipá-la. Vocês serão apresentados à menor banda do rock gaúcho. Com vocês, Pouca Vogal!



Para falar do Pouca Vogal, temos que, primeiramente, conhecer outras duas bandas: Engenheiros do Hawaii e Cidadão Quem. Engenheiros dispensa apresentações. Quem nunca ouviu clássicos como “Exército de um homem só”, “O Papa é Pop”, “Somos quem podemos ser”?





Em 1984, quatro estudantes de arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, uniram-se para uma apresentação única, em um festival universitário, em protesto à paralisação das aulas. Humberto Gessinger,Marcelo Pitz, Carlos Stein e Carlos Maltz precisavam de um nome. Já demonstrando a veia irônica, tão presente nas letras da banda, resolveram que o grupo de arquitetos seriam conhecidos como Engenheiros do Hawaii, uma alusão aos estudantes de engenharia, curso que “rivalizava” com arquitetura, que iam à faculdade vestidos como surfistas. As primeiras canções orientavam-se por uma batida pop, influenciada pela pegada ska de bandas como The Police e Paralamas do Sucesso. Ao longo de sua trajetória, no entanto, os Engenheiros firmam-se no cenário musical brasileiro com uma pegada rock clássica dos anos 60, letras marcadas pela ironia, com muitas antíteses, paradoxos, aliterações e jogos de palavras, como nesses versos de “Somos quem podemos ser”:

“Quem ocupa o trono

Tem culpa

Quem oculta o crime

Também

Quem duvida da vida

Tem culpa

Quem evita a dúvida

Também tem...”

Em sua trajetória, a banda lançou 18 cds. Em 2008, com o fim da turnê Acústico MTV, os Engenheiros encerraram as atividades do grupo. Pelo menos, temporariamente. No site oficial, Gessinger diz que deve voltar à ativa em 2011, quando são comemorados 25 anos do lançamento de Longe demais das capitais, primeiro trabalho dos Engenheiros do Hawaii.

O sul do país é tradicionalmente uma região de boa música. O rock gaúcho possui uma infinidade de bandas e músicos de muito talento. No início dos anos 90, também em Porto Alegre, surge uma nova banda, Cidadão Quem, composta pelos irmãos Duca e Luciano Leindecker e Cau Hafner e seguem o estilo rock progressista tão marcante de Gessinger e seus meninos. Autores de sucessos como “Carona”, “Os Segundos”, “A la Recherche”, “Pinhal” e “Ao Fim de Tudo”, os trabalhos foram interrompidos em para o tratamento de um câncer do baixista Luciano. Enquanto isso, Duca junta-se a Humberto, na empreitada Pouca Vogal, dando início a uma parceria de muito sucesso, mas o principal, de muito talento e bom gosto musical.


Amigos desde os anos 80, Leindecker e Gessinger encabeçam duas das principais bandas gaúchas. Com a interrupção das atividades do Engenheiros e Cidadão Quem, os meninos resolveram tocar um projeto já antigo, de parceria entre eles. Nascia Pouca Vogal, uma referência ao nome do estado do Rio Grande do Sul, composto, basicamente, de consoantes, com poucas vogais (hã hã, entendeu?). A princípio, foram gravadas oito músicas, que foram disponibilizadas para download no site da banda. Com a repercussão positiva, os caras gravaram o primeiro DVD, Pouca Vogal Ao Vivo em Porto Alegre. Como o projeto é independente, foram nove meses da gravação do show ao lançamento do DVD, que reúne grandes sucessos das duas bandas, além de canções inéditas compostas pela parceria.



E porque é que estou falando tudo isso? Porque, vejam só, Duca e Gessinger apresentam-se na cidade do ET no fim do mês. Eu não estava acreditando, até ver a data já confirmada no site oficial. Aí sim, pude trazer até vocês um pouquinho sobre os caras e anunciar, não tão em primeira mão assim, o show deles, dia 26 de novembro, no Thermas Sul de Minas, em Varginha. Até que enfim, um show que não seja nem axé nem sertanejo! Nesse, podem ter certeza, estarei lá na primeira fila!

Por hoje, é só, galerinha. Não posso me despedir sem deixar de solidarizar-me com o grande amigo Doguinha, que, infelizmente, perdeu sua mãe essa semana. A morte na vida é um processo inevitável. Cada dia vivido pode ser contabilizado como menos um dia de vida. É mórbido? É. Mas é verdade. Ainda assim, não deixa de ser doloroso dormir e acordar com a consciência da perda. Por isso, hoje me despeço com Carlos Drummond de Andrade e sua célebre frase: “Na verdade, não há vivos. Existem aqueles que se foram e os que esperam sua vez.” Força, cara. É difícil, triste e solitário. Mas, independente, estarei aqui. Sempre.

Vem ni mim, sexta-feira!

Paola Tavares