terça-feira, 10 de junho de 2014

COLUNA


A tricentenária Vila do Príncipe

A cidade do Serro completou neste ano 300 anos de existência. Fundada em 1714 como Vila do Príncipe, ostentou uma riqueza exuberante forjada no ouro e nas pedras preciosas, não fosse por si só o berço do Jequitinhonha, formador de uma das mais pujantes bacias hidrográficas do Brasil e leito da riqueza acumulada ao longo dos séculos.
O antigo Serro do Frio, como era então chamado o local privilegiado bafejado pelas aragens geladas da Serra do Espinhaço, tornou-se a quinta vila mineira a ser criada ainda no século XVIII, tendo suas primeiras minas descobertas em 1701, por Manuel Rodrigues Arzão e Antônio Soares Ferreira, que deram à região o primitivo nome de Ivituruí, na linguagem indígena “serro frio”, que, segundo o historiador Escragnolle Taunay, remete-se ao “enregelado frio que faz pelo cume da serra, com frigidíssimos ventos”.
O Arquivo Público Mineiro registra em seus documentos históricos um livro da Receita da Fazenda Real das minas do Serro do Frio onde se lê que efetivamente em 1702 foram os dois apontados bandeirantes que descobriram “às suas custas, com grande trabalho e perda de sua fazenda, calamidades e perigos de vida”, as novas minas de Santo Antônio do Bom Retiro do Serro do Frio, dando-se a ambos, posteriormente, a primazia de guardas-mores da região.
Em 29 de janeiro de 1714, por ato do então governador da capitania de São Paulo e Minas do Ouro, Brás Baltazar da Silveira, o arraial era elevado à condição de Vila do Príncipe (homenagem ao recém-nascido príncipe D. José, que seria o rei D. José I, de Portugal) e como cidade foi elevada somente em 6 de março de 1838. Um dos principais viajantes estrangeiros que por ali passaram, o alemão Johann Emanuel Pohl, deixou gravadas em 1832 em sua obra “Viagem no Interior do Brasil”, as seguintes impressões sobre o Serro: “Distingue-se pela sua vista agradável, muito bela, a qual observada de longe se apresenta muito vantajosamente. A bela vila deve ter umas 600 casas, a metade delas de 2 andares...os habitantes em sua maioria são mineiros, que exploram suas lavras de ouro nos arredores e cultivam as suas plantações de milho, feijão, algodão e cana-de-açúcar”.



O belo casario do Serro e a Igreja de Santa Rita

No Serro nasceram homens e mulheres de grande expressão nacional; ali fundou-se uma imprensa periódica, a quarta das Minas Gerais, administrada pelos irmãos Ottoni – Teófilo e Cristiano, serranos que teriam seus nomes inscritos na galeria de honra da História do Brasil, o primeiro como político e um dos nomes da Revolução Liberal de 1842 em Minas Gerais; o segundo, considerado “o pai das estradas de ferro no Brasil”, pois foi através de seus esforços e conhecimentos que se criou a Estrada de Ferro D. Pedro II, depois Central do Brasil, na década de 1850.
Dali saíram também três ministros do Supremo Tribunal Federal, que, com seus distintos conhecimentos e inteligências, deram ao Brasil inestimáveis lições de patriotismo e civismo. O primeiro deles foi João Evangelista Negreiros Saião Lobato, o visconde de Sabará, que pertenceu aos dois tribunais superiores: o do Império (o antigo Supremo Tribunal de Justiça) e o da República (o Supremo Tribunal Federal). No primeiro foi, inclusive, presidente no período de 1886 a 1889. O segundo serrano a ocupar um cargo no Supremo Tribunal Federal foi Pedro Augusto Carneiro Lessa, que ali ingressou no ano de 1907. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Brasileira de Letras. Dele se diz que foi um brasileiro notável pelo saber e pelo caráter, deixando valiosas obras de cunho jurídico. O terceiro nome foi o de Edmundo Pereira Lins, que alcançou a mais alta magistratura do país em 1917. Da mesma forma que Pedro Lessa, também era possuidor de notável saber e grande cultura, dono de vasta obra literária no campo das ciências jurídicas.
Igualmente nascido na cidade do Serro figura um dos mais exponenciais políticos produzidos nas terras mineiras e que dignificou o cargo de presidente do Estado: João Pinheiro da Silva, um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, tendo sido o seu primeiro presidente, no ano de 1907. A nossa cidade de Caxambu homenageou-o, imortalizando seu nome em uma das ruas do centro da cidade. A foto mostra o colunista ao lado da herma de João Pinheiro, na praça central da cidade do Serro.



Não se pode olvidar, também, que a cidade do Serro detém a primazia de ter o queijo ali produzido como “patrimônio imaterial de Minas Gerais e do Brasil”, em decisão do IPHAN do ano de 2008 e em 2011 recebeu o registro de Indicação Geográfica (IG), o que assegura aos produtores da região do Serro o direito exclusivo de identificá-lo pela localidade.
Foi para homenagear a cidade do Serro e seus filhos ilustres que o IHGMG realizou no dia 7 de junho sessão solene com a presença da ilustre Dra. Assusete Dumont Reis Magalhães, Ministra do Superior Tribunal de Justiça, que, como cidadã serrana, recebeu a comenda “Israel Pinheiro”, outorgada por aquela casa de cultura e dedicada a premiar personalidades de alto valor e reconhecido mérito, como é o caso da Ministra Assusete Magalhães, digna representante da cidade do Serro e do Estado de Minas Gerais na chamada “Corte da Cidadania”, como ficou conhecido o Superior Tribunal de Justiça, a partir da Constituição de 1988.

_____________
*  Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais