As dívidas e a preocupação com elas crescem, com o aumento das taxas de juros, que afetaram a oferta do crédito, e da inflação. Somente às instituições financeiras, de acordo com o Banco Central, as famílias estão devendo R$ 1,3 trilhão, um recorde correspondente a 26,1% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma da produção de bens e serviços do país. Nos últimos 12 meses, esse montante acumula alta de 15,2%, ilustrando o aperto no orçamento doméstico.
O real saldo do comprometimento da renda dos brasileiros com empréstimos é ainda maior do que o calculado pelo BC. O mapeamento da autoridade monetária não inclui as dívidas alheias ao sistema financeiro, como aquelas assumidas
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pelos consumidores diretamente com os comerciantes. Não à toa, a carestia deu a sensação de que o salário encolheu e os débitos alargaram. O consumo perdeu força para garantir o crescimento do país e há incerteza quanto ao futuro dos principais indicadores econômicos. Por isso, educadores financeiros orientam uma postura conservadora dos consumidores. A ordem é conter gastos, não abrindo mão da poupança.
O endividamento das famílias se deu basicamente pelo mau uso do crédito, na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Educação Financeira (Abef), Edmilson Lyra. Ele prevê um "sofrimento" ainda maior, já que a inflação se mantém em níveis elevados quando se analisa o período acumulado dos últimos 12 meses. “E o índice divulgado oficialmente não tem o mesmo peso da inflação percebida pelo consumidor nos supermercados”, comenta.
Sem o sustento do consumo, o PIB do país patina, sem sinais de retomar o fôlego. O pífio avanço de 0,2% no primeiro trimestre faz Lyra se preocupar com o nível do emprego. `”O quadro não é nada animador. Muitas famílias não conseguirão sair tão cedo do endividamento”, acredita o analista, para quem o baixo crescimento em 2014 é fato consumado.
O cenário internacional não contribui muito para previsões positivas no curto prazo. Júlio Miragaya, do Conselho Federal de Economia, lembra que a Índia e a China desaceleraram e a Europa não consegue destravar. “Não há certeza alguma no horizonte. Não dá para apostar em recuperação de nível de consumo. Há muita gente apostando que a atual crise passe de 2020”, destaca o economista. No Brasil, há o agravante dos sinais de esgotamento da capacidade de consumo do mercado interno. Em abril do ano passado, a Selic passou a subir e está, hoje, em 11% anuais.
Com a economia enfraquecida, os trabalhadores não poderão contar com aumentos reais significativos de salários. Os novos patamares de inflação e juros mexeram na prioridade das famílias, que trocaram o consumo aquecido pelas dívidas. Atualmente, R$ 4,50 de cada R$ 10 do rendimento das famílias, em média, estão reservados para pagar empréstimos bancários e parcelas de financiamento, principalmente imobiliário. A escalada dos juros deverá impactar nessa proporção nos próximos meses, aumentando o nível de comprometimento, na opinião do economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes.
Prudência oportuna
A segurança no emprego, sustenta o especialista, será uma variável determinante. “O problema é que as pessoas se endividaram muito com o crédito longo”, diz. O contraponto positivo nesse cenário, acrescenta o economista, é que, na avaliação dele, as famílias estão mais prudentes com as finanças e, endividadas até o pescoço, passaram a demandar menos crédito.
Nos últimos dois anos, de acordo com os dados do Banco Central, o endividamento dos brasileiros em relação à renda acumulada em 12 meses apresenta uma trajetória crescente: subiu, no período, de 42,08% para 45,73%, uma variação de 3,65 pontos percentuais. “Para algumas famílias, o consumo caiu apenas porque o crédito perdeu força”, observa o educador financeiro Álvaro Modernell. “Se tivessem dinheiro disponível, muitos continuariam gastando”.
Para os que, na empolgação do consumo, se penduraram no cheque especial e no rotativo do cartão de crédito — as modalidades com as maiores taxas do mercado —, o drama para se livrar dos débitos se intensificará, sublinha o economista Ricardo Rocha, professor de finanças do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). “Nesses casos, não há jeito: o endividamento certamente ficará maior, justamente por conta da recente alta dos juros”, diz.
Fonte: UAI
